Lançamento do livro “Negócios mobiliários e transformações sócio-territoriais na América Latina”, do prof. Paulo Cesar Xavier Pereira

[Clique na imagem para ampliá-la]

 

Anúncios

Redação científica ganha site especializado

Fonte: Agência FAPESP

21/09/2011
Por Fábio de Castro

Agência FAPESP – Em sete livros sobre redação e publicação científica, o zoólogo Gilson Volpato sistematizou o conhecimento acumulado ao longo de mais de 25 anos de dedicação ao tema. A partir de agora, os interessados poderão encontrar uma referência permanente sobre o assunto na internet.

Volpato, que é professor do Departamento de Fisiologia do Instituto de Biociências de Botucatu da Universidade Estadual Paulista (Unesp), lançou um site que tem o objetivo de oferecer ao público acesso a artigos, dicas e reflexões sobre temas como redação científica, educação e ética na ciência.

No serviço também é possível acompanhar a concorrida agenda de Volpato, que em 2010 apresentou 78 palestras e cursos em todo o Brasil. “Na minha trajetória estou continuamente descobrindo notícias, artigos e outras referências interessantes ligadas à ética da ciência, à publicação e à redação científica. Com base na minha experiência, procurei selecionar esse material, editá-lo e disponibilizá-lo acompanhado de comentários”, disse à Agência FAPESP.

A ideia inicial era lançar um blog, mas a limitação de tempo para a interação constante com os leitores levou o autor a optar por um site. “Além do material proveniente de outras fontes e selecionado, o site permite o download de artigos relacionados aos vários temas que tenho abordado”, disse.

O site se divide nas seções “Ciência”, “Redação Científica”, “Publicação Científica”, “Ética e Moral na Ciência”, “Sociedade”, “Administração” e “Educação”. Em cada uma das seções temáticas há uma lista de livros relacionados ao assunto, artigos, uma série de links para textos externos – com comentários do autor – e uma lista de dicas.

O site também dá acesso a aulas on-line do curso “Bases Teóricas para Redação Científica”, apresentado por Volpato na Unesp. “Por enquanto há 19 aulas disponíveis, mas todo o material já foi gravado. Estou corrigindo detalhes em alguns dos vídeos e em breve todas as 44 aulas estarão no ar”, disse.

Autor do Método Lógico para a Redação Científica, Volpato conta que o conjunto de sua obra procura mostrar que a redação científica deve se pautar pela lógica da pesquisa e não por costumes acadêmicos.

“A redação e a publicação de ciência têm apresentado uma orientação muito técnica, de maneira geral. O que procuro fazer é escapar dessas receitas prontas. Todas as decisões do autor de um artigo devem ser produto da lógica científica e não de regrinhas extraídas dos costumes, que reproduzem e perpetuam equívocos conceituais”, disse.

Em outubro, Volpato publicará o livro Estatística sem dor, em coautoria com Rodrigo Barreto, também professor do Departamento de Fisiologia do Instituto de Biociências de Botucatu da Unesp.

Sobre Redação e Publicação Científica, os últimos livros de Volpato foram: Bases teóricas da redação científica … por que seu artigo foi negado (2007), Pérolas da redação científica (2010), Dicas para redação científica (2010) e Lógica da redação científica (2011).

Redação Científica por Gilson Volpato: www.gilsonvolpato.com.br

 

Livro “(Im)possíveis Brasílias: os projetos apresentados no concurso do plano piloto da nova capital federal”

Fonte: Agência FAPESP

26/09/2011

Por Elton Alisson

Agência FAPESP – No lugar de esplanadas, superquadras e eixos monumentais, a paisagem de Brasília poderia ser composta hoje por um aglomerado de chácaras que produziriam os bens necessários para a subsistência de sua população. Ou a capital federal do Brasil seria ultramoderna, abrigando seus moradores em torres da altura da Torre Eiffel.

Essas e outras “Brasílias”, que poderiam ter se tornado realidade se o arquiteto e urbanista Lúcio Costa (1902-1998) não tivesse participado e se sagrado vencedor do concurso do plano piloto de Brasília, em 1956, são descritas no livro (Im)possíveis Brasílias: os projetos apresentados no concurso do plano piloto da nova capital federal, lançado em agosto com apoio da FAPESP por meio da modalidade Auxílio à Pesquisa – Publicações.

Resultado da tese de mestrado de Aline Moraes Costa Braga, defendida em 2002 no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), o livro aborda os 25 projetos derrotados por Costa no “concurso arquitetônico mais importante do século 20”.

Para reuni-los, Braga visitou todos os escritórios de arquitetura que estavam ativos na época e realizou entrevistas com alguns dos arquitetos que participaram do concurso, como Joaquim Manoel Guedes Sobrinho (1932-2008).

Dessa forma, reuniu uma coleção documental e iconográfica sobre cada um dos projetos que participaram do certame e que até então estavam dispersos. Também contextualizou a história do concurso, que reuniu duas gerações de arquitetos no Brasil – os pioneiros do Movimento Moderno e jovens arquitetos que se destacariam nas décadas seguintes – e ficou marcado como um momento singular de debate internacional de ideias arquitetônicas.

Segundo Braga, a maior parte dos projetos apresentados no concurso se baseava no conceito de urbanismo moderno, que defendia a organização das principais funções da cidade.

“As referências às superquadras, com a ideia de possibilitar a independência entre a circulação dos pedestres e dos automóveis e setorizar os serviços de comércio, residencial e de lazer, são predominantes em todos os projetos”, disse à Agência FAPESP.

A única exceção, segundo ela, foi o projeto de José Octacílio de Saboya Ribeiro (1899-1967), que previa que a cidade seria construída na parte mais alta do relevo, distanciando-se consideravelmente do lago, e teria elementos renascentistas.

Outras propostas ousadas foram as dos arquitetos João Batista Vilanova Artigas (1915-1985) e dos irmãos Marcelo (1908-1964), Milton (1914-1953) e Maurício Roberto (1921-1996), do escritório MMM Roberto.

Um dos arquitetos mais jovens a participar do concurso, o paulista Artigas propôs que Brasília fosse uma aldeia rural, formada por um aglomerado de chácaras que produziriam tudo o que fosse necessário para o consumo de sua população e com habitações bem distantes uma das outras.

Por sua vez, os irmãos Roberto também propuseram que a cidade fosse dividida em sete núcleos autônomos, que teriam suas próprias administrações e infraestrutura de serviços, e cada um abrigaria um determinado órgão do governo.

“Essa proposta também é diferente dos outros projetos que, normalmente, condensaram todas as atividades governamentais em um só ponto da cidade. Ela evitaria que todo mundo se deslocasse para um local da cidade, como ocorre hoje, evitando congestionamentos”, avaliou Braga.

Segundo a autora, a proposta mais radical, e que se tornou a mais famosa depois do projeto Costa, foi a de Rino Levi (1901-1965). O arquiteto propôs uma cidade vertical, com torres com 300 metros de altura – altura semelhante à da Torre Eiffel –, que concentrariam as habitações. Já os edifícios públicos e os serviços da cidade se concentrariam na parte térrea, em edifícios totalmente baixos, que se contraporiam aos edifícios residenciais.

O projeto, que surpreendeu a crítica pela ousadia e por ter sido elaborado por um arquiteto que era visto na época como conservador, não agradou o júri do concurso.

“Os jurados acharam que a proposta dele não valorizava os serviços administrativos e governamentais, que seriam os principais objetivos da nova capital administrativa do país”, contou Braga.

A ausência mais notada no concurso foi a do paulista Francisco Prestes Maia (1896-1965). Prefeito de São Paulo e um dos mais experientes urbanistas brasileiros, Maia, que na época do concurso e da construção de Brasília estava desenvolvendo e implantando o projeto da cidade de Campinas, não participou do concurso por razões até hoje desconhecidas.

“É muito curioso o fato de que o maior urbanista brasileiro, que possuía um currículo que permitia ser convidado para projetar Brasília sem nem sequer ter de se inscrever no concurso, não tenha participado. E ninguém sabe qual a razão”, disse Marcos Tognon, professor da Unicamp, que orientou Braga e assina o prefácio do livro.

Projeto vencedor

De acordo com Tognon, também havia uma expectativa de que Lúcio Costa, que era um dos arquitetos mais importantes na época, não participasse do concurso. Mas, no último dia do prazo de inscrição para o concurso, a filha do arquiteto apresentou o projeto do pai, que venceu com bastante distância e destaque dos outros colocados e se contrastava deles, além da proposta, pela simplicidade com que foi apresentado.

Enquanto os outros projetos eram compostos por estudos, desenhos técnicos, documentos e maquetes, o de Costa era um memorial manuscrito curto, com cerca de 30 e poucas páginas, contendo os esboços de suas ideias, que solucionavam de maneira muito simples e elegante questões que outros arquitetos não conseguiram resolver após estudos exaustivos.

“O projeto era quase que uma proposta de estética urbana, enquanto que a dos outros projetos era de uma cidade funcional. Embora não esquecesse de pensar na função da cidade, Costa valorizou muito o efeito visual de Brasília, enquanto as outras propostas estavam mais preocupadas com a questão funcional, habitacional e de transportes”, avaliou Tognon.

Segundo ele, curiosamente, o projeto de Costa foi que o estava mais preparado para receber as obras de arquitetura de Oscar Niemeyer, que não participou do concurso porque foi convidado diretamente para executar o projeto.

Niemeyer foi estagiário de Lúcio Costa no início de sua faculdade de arquitetura no Rio de Janeiro e os dois arquitetos já haviam trabalhado juntos em outros projetos, como a construção do pavilhão brasileiro para a Feira Universal de Nova York. “Eles conviviam muito, tinham muitas afinidades e gostavam dos mesmos arquitetos e referências arquitetônicas europeias”, disse Tognon.

Segundo o pesquisador, Costa estudou um modelo de superquadra desenvolvido na Europa para adaptá-lo ao cerrado de Brasília. E buscou inspiração em grandes capitais, como Paris e Washington, para elaborar o eixo monumental da cidade, que é uma espécie de cena arquitetônica por onde foram dispostos os edifícios em posições estratégicas e as duas asas habitacionais da cidade.

Construída praticamente no prazo de 40 meses, e alvo de elogios e críticas, Brasília não teve tempo de amadurecer e se tornar uma cidade liberal, que demarcaria uma nova fronteira, conforme previa Juscelino Kubitschek (1902-1976), porque quatro anos depois viria a se tornar a capital da ditadura, aponta Tognon. O que fez com que Costa não pudesse mais trabalhar e Niemeyer se exilasse, tornando a capital federal uma cidade inacabada.

“Teríamos uma Brasília mais verde, com maior funcionalidade e melhor desenvolvida se não houvesse a ditadura militar. A cidade precisaria de mais 15 ou 20 anos dentro da mesma cultura política da época em que começou a ser construída para se desenvolver plenamente”, concluiu Tognon.

(Im)possíveis Brasílias: os projetos apresentados no concurso do plano piloto da nova capital federal
Autor: Aline Moraes Costa Braga
Lançamento: 2011
Mais informações: www.alamedaeditorial.com.br/contato.html

Palestra: Tempo e Paisagem, na FAUUSP

[Clique na imagem para ampliá-la]

Palestrante: Professor João Ferreira Nunes
Data: 26 de setembro de 2011
Horário: 17h
Local: Anfiteatro da FAU – Cidade Universitária (Rua do Lago, 876).
Informações: Setor de Eventos – 3091.1603

Fonte: Eventos FAU

Paradoxos no boulevard

Fonte: Folha de S. Paulo, 18/09/2011

 

Paradoxos no boulevard

Higienópolis, das vanguardas à TFP

RESUMO
Criticado pela resistência de moradores a mudanças como a chegada de shopping ou a do metrô, bairro equilibra genealogia quatrocentona e juventude, rampas modernistas e paredes de granito-fake, sede da Tradição, Família e Propriedade e história do PT. O símbolo do progressismo e do atraso paulistano representa o fim de uma era.

RAUL JUSTE LORES

OS CORRETORES imobiliários choramingam. Apesar do espetáculo do encarecimento do metro quadrado em São Paulo, Higienópolis decepciona. “Que adianta um apartamento de 400 m2 com uma só vaga de garagem?”, lamentam.
Se quatro vagas de garagem são fundamentais para quem tem R$ 2 milhões para comprar um imóvel, o bairro nobre mais tradicional da cidade é modesto. Parcos terrenos disponíveis, área já bem densa e casarões tombados o deixam pouco sexy para a especulação. Enquanto o metro quadrado de um imóvel usado em Higienópolis fica pouco acima de R$ 8.000, em bairros mais novos, como Pinheiros, Itaim e Vila Nova Conceição, o valor vai de R$ 9.500 a 14 mil.
Mas os moradores são ciosos da tradição de um século -nos anos 90, a gritaria contra a abertura de um shopping na avenida Higienópolis só foi acalmada depois que os empreendedores aceitaram um recuo na construção para deixá-la escondida no quarteirão e assumiram a conservação de casarões vizinhos. Mais recentemente, a polêmica detonada por outro abaixo-assinado, contra o metrô na esquina da rua Sergipe com a avenida Angélica, devolveu ao bairro a acusação de Versalhes paulistano, encastelado e antipobre.
Esnobe ou estagnado? A questão também é feita pela historiadora Maria Cecília Naclério Homem, professora aposentada da FAU-USP. Na quinta-feira, ela lançou “Higienópolis: Grandeza de um Bairro Paulistano” [Edusp, 280 págs., R$ 72], versão revista e ampliada de “Higienópolis: Grandeza e Decadência de um Bairro Paulistano”, tese de seu doutorado editada em 1980. A “decadência” caiu do título entre as edições. “O bairro se reinventou e virou cult”, diz Maria Cecília, viúva do historiador Caio Prado Jr. (1907-90), herdeiro de uma das mais tradicionais famílias higienopolitanas.
No livro, que tem muito de genealogia de quatrocentões e nostalgia dos palacetes, Higienópolis sobressai como representante do fim de uma era paulistana, já representada pelas garagens modestas.
Ao contrário de outros bairros nobres, como Morumbi ou Vila Olímpia, é comum que um mesmo quarteirão do bairro tenha apartamentos de 80 m2 e outros de 500 m2 -em vários casos, no mesmo prédio. O comércio de rua ainda utiliza térreos de prédios comerciais e residenciais. Uma barbearia sobrevive no térreo de um edifício residencial dos anos 30 na Angélica, assim como cafés, bares, sapatarias e alfaiatarias funcionam na altura da rua. Quatrocentões e banqueiros dividem a geografia com aposentados, professores e imigrantes de primeira geração (antes judeus, hoje coreanos).

FUGA Como tantos empreendimentos feitos para a elite, Higienópolis nasceu como projeto imobiliário, chamado Boulevard Bouchard -que promovia uma fuga do então elitista Campos Elíseos, que começava a se “popularizar”. Outros loteamentos paulistanos, do Jardim Europa a Alphaville, nasceram graças a essa fuga contra a aproximação das classes médias, algo que se repete até hoje.
Em seus primórdios, a região ainda se chamava Altos de Santa Cecília. Em 1893, os alemães Martinho Bouchard e Victor Nothmann compraram um área de quase 850 mil m2 dos barões de Ramalho e Wanderley. Em 1895, passaram a vender lotes. Marqueteiro até no nome, virou Higienópolis, por contar com água e esgoto, resposta às enchentes e epidemias frequentes.
Três filhas de barões, donas de grandes áreas na região, emprestaram seus nomes às principais vias, Veridiana da Silva Prado, Maria Angélica de Sousa Queirós e Maria Antônia da Silva Ramos. Apesar de se dedicarem à filantropia e à promoção das artes, como se esperava de damas da sociedade, conquistaram projeção rara para mulheres da São Paulo do século 19. Em salões do bairro, urdiu-se a Semana de Arte Moderna de 1922.
Mas a crise do café, o crash da bolsa de Nova York e a ascensão de Vargas foram impiedosos com a elite paulistana. Famílias tiveram de se desfazer de palacetes e fatiar terrenos entre vários herdeiros.
Uma coincidência cronológica beneficiou a indústria imobiliária do bairro durante o desaparecimento dos palacetes. Bons arquitetos europeus vieram para cá, fugindo da guerra e da depressão econômica, e o modernismo brasileiro já tinha alcançado status de luxo para as novas elites. Com isso, Higienópolis virou um playground para jovens arquitetos. Entre os anos 30 e os 60, construíram por lá arquitetos como Vilanova Artigas, Rino Levy, Franz Heep, Jacques Pillon, Artacho Jurado, Victor Reif e os irmãos Roberto.
Com rampas abertas, o edifício Louveira, na praça Vilaboim, e o Piauí, na rua Sabará, até hoje estão livres de grades, talvez pela desconfiança de que arrastões são mais comuns em prédios fortificados no Real Parque ou em Moema.
Paradoxos não faltam. Há um século, surgiu na região o colégio Sion, criado por religiosas francesas devotadas a converter ao catolicismo os “povos de Israel”. Missão fracassada, pois Higienópolis virou o bairro com a maior população judaica do Brasil (25% da comunidade de todo o Estado de São Paulo) e sede da maior concentração de sinagogas no país (14). “Em poucas cidades do mundo, além de Jerusalém, você vê dezenas de famílias de judeus ortodoxos andando pela rua durante o Yom Kippur como no bairro”, sublinha o rabino Michel Schlesinger, presidente da Congregação Israelita Paulista, morador do bairro.
Em um salão alugado do Sion, o Partido dos Trabalhadores foi fundado em 1980; nos anos 90, no governo de Fernando Henrique Cardoso, seu mais ilustre morador, a Vilaboim se tornou quase um anexo de Brasília. A Cúria Metropolitana de São Paulo, representação do Vaticano na cidade, e a organização católica de extrema direita Tradição, Família e Propriedade (TFP) estão nas redondezas.

CRACOLÂNDIA A chegada dos viciados em crack foragidos da cracolândia e o efeito-contágio do Minhocão no esvaziamento do centro comprovam que Higienópolis não é uma cidadela à prova do urbanismo paulistano. Na arquitetura, a decadência tampouco dá sinais de reversão. Um passeio pela Angélica ilustra o percurso ladeira abaixo. Obras do auge do modernismo foram sucedidas por prédios de vidro espelhado azul, ou com paredes de granito-fake para evocar o neoclássico parisiense, ou com ornamentos do pior pós-moderno vernáculo. Todos com muros altíssimos, guaritas portentosas e seguranças vestindo preto.
O Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura acaba de inaugurar “sua moderna sede”, como descrita em anúncio, em um neoclássico pesadão que enfureceria o mais permissivo dos parisienses, com toldos de vidro esverdeado na entrada e o autoexplicativo nome “New England”.
Apesar das várias faculdades, os cinemas e teatros rarearam -e a programação do Cinemark do Pátio Higienópolis é de expulsar cinéfilo para outros bairros. O destino de alguns palacetes sobreviventes é desconhecido. O art noveau da família Rodrigues Alves, que serviu de prisão para o juiz Nicolau “Lalau” dos Santos Neto, está vazio. A casa de Nhonhô Magalhães, onde ficava a polícia antissequestro, espera que o shopping, que o arrendou, lhe dê uso. O palacete do jornalista e engenheiro Alexandre Marcondes Machado, mais conhecido pelo pseudônimo Juó Bananere, com que fazia poesia satírica italianada (é autor de “La Divina Increnca”), virou agência bancária na esquina da Angélica com Higienópolis -nada sobrou de sua memória.
Se anda desprezando o passado, traço paulistano por excelência, ao menos o bairro conseguiu rejuvenescer. Higienópolis não é mais só a Copacabana paulistana. Vários restaurantes e bares foram inaugurados nos últimos anos, atraídos por moradores que reduziram a faixa etária local. Corretores podem chorar pelos estacionamentos escassos, mas isso permitiu bons negócios a artistas, publicitários, jornalistas e estilistas, que arremataram apartamentos espaçosos e sem garagem, ganhando de brinde a vida urbana e a arquitetura de qualidade -essas, sim, de preço inacessível em São Paulo.

Parcos terrenos disponíveis e casarões tombados tornam a região pouco sexy para especulação: o metro quadrado vale menos que o de Pinheiros ou do Itaim Bibi

Apesar das várias faculdades, cinemas e teatros rarearam -e a programação do Cinemark do Pátio Higienópolis é de expulsar cinéfilos para outros bairros

 

Galeria muda de quarteirão e reproduz prédio de Paulo Mendes da Rocha

Fonte: Folha.com

NATÁLIA ZONTA
DE SÃO PAULO

Qualquer semelhança não é mera coincidência. A menos de dois quarteirões de distância, a mesma fachada, os mesmos materiais e o mesmo projeto assinado pelo premiado arquiteto Paulo Mendes da Rocha poderão ser vistos em duas construções distintas.

Replicado em um terreno na avenida Valdemar Ferreira, no Butantã (região oeste), o prédio que hoje abriga a galeria Leme, na rua Agostinho Cantu, será demolido até o fim do ano para dar espaço a um edifício de escritórios. Para não perder a identidade -e não se desfazer de um espaço que adora–, Eduardo Leme, proprietário do local, decidiu reproduzir as instalações no novo endereço.

A mudança é resultado de uma longa negociação. Desde 2010, a Odebrecht tentava comprar a área de Eduardo. Após muitas conversas, os envolvidos chegaram a um acordo. Assim, a empresa comprou um terreno na região e agora constrói a galeria do jeitinho que ela é hoje.

“Não tivemos a ideia de usar o mesmo projeto imediatamente, mas, depois de conversar com os arquitetos, vi que nenhuma outra possibilidade me agradava. Sou muito tradicional nesse sentido”, conta Eduardo.

A única modificação é a construção de um anexo, um cubo de concreto armado, que funcionará como reserva técnica. “Quando abri a galeria, não imaginava que precisaria de mais espaço, mas agora é necessário”, diz o proprietário.

O novo local vai dar mais visibilidade ao projeto: hoje, a galeria tem dois vizinhos e apenas uma fachada é visível. O prédio substituto vai ocupar uma esquina e toda a sua lateral –um paredão de concreto– ficará à mostra. O anexo, que será ligado à galeria por uma passarela, também vai ajudar a mudar a paisagem da região.

“Metade da construção já está pronta e, até o fim do ano, deve ser inaugurada. A coexistência dos dois prédios vai depender da logística da mudança”, explica Gustavo Cedroni, do escritório de arquitetura Metro, que tem parceria com Paulo Mendes da Rocha. Atualmente, é possível ver as fachadas da nova estutura. Por isso, quem passa pela região já avista dois imóveis iguais.

O processo de mudança da galeria Leme é acompanhado por artistas do espaço e, provavelmente, o material produzido no período será transformado em uma exposição.
Entre os convidados, estão Rogério Canella, fotógrafo da sãopaulo, José Carlos Martinat, Sandra Gamarra e David Batchelor.

A galeria

Foi inaugurada em 2004 com a intenção de mostrar experimentos de arte contemporânea. O prédio tem 420 m2 e 9 m de pé-direito.

Hoje, representa artistas brasileiros e internacionais, com ênfase em América Latina, que trabalham em vários tipos de mídia, de pintura a vídeos.

Alguns artistas representados pela galeria são David Batchelor, Elaine Tedesco, Felipe Cama, JR Duran, Frank Thiel, Nina Pandolfo e Sandra Gamarra.

Antes de mudar de endereço, o espaço recebe, até 12 de novembro, a mostra da dupla dinamarquesa AVPD.

 

Lançamento do livro: “Da SoCIeDADE moderna à pós-moderna no Brasil”, da Profa. Maria Irene Szmrecsáyi

[Clique na imagem para ampliá-la]