Paradoxos no boulevard

Fonte: Folha de S. Paulo, 18/09/2011

 

Paradoxos no boulevard

Higienópolis, das vanguardas à TFP

RESUMO
Criticado pela resistência de moradores a mudanças como a chegada de shopping ou a do metrô, bairro equilibra genealogia quatrocentona e juventude, rampas modernistas e paredes de granito-fake, sede da Tradição, Família e Propriedade e história do PT. O símbolo do progressismo e do atraso paulistano representa o fim de uma era.

RAUL JUSTE LORES

OS CORRETORES imobiliários choramingam. Apesar do espetáculo do encarecimento do metro quadrado em São Paulo, Higienópolis decepciona. “Que adianta um apartamento de 400 m2 com uma só vaga de garagem?”, lamentam.
Se quatro vagas de garagem são fundamentais para quem tem R$ 2 milhões para comprar um imóvel, o bairro nobre mais tradicional da cidade é modesto. Parcos terrenos disponíveis, área já bem densa e casarões tombados o deixam pouco sexy para a especulação. Enquanto o metro quadrado de um imóvel usado em Higienópolis fica pouco acima de R$ 8.000, em bairros mais novos, como Pinheiros, Itaim e Vila Nova Conceição, o valor vai de R$ 9.500 a 14 mil.
Mas os moradores são ciosos da tradição de um século -nos anos 90, a gritaria contra a abertura de um shopping na avenida Higienópolis só foi acalmada depois que os empreendedores aceitaram um recuo na construção para deixá-la escondida no quarteirão e assumiram a conservação de casarões vizinhos. Mais recentemente, a polêmica detonada por outro abaixo-assinado, contra o metrô na esquina da rua Sergipe com a avenida Angélica, devolveu ao bairro a acusação de Versalhes paulistano, encastelado e antipobre.
Esnobe ou estagnado? A questão também é feita pela historiadora Maria Cecília Naclério Homem, professora aposentada da FAU-USP. Na quinta-feira, ela lançou “Higienópolis: Grandeza de um Bairro Paulistano” [Edusp, 280 págs., R$ 72], versão revista e ampliada de “Higienópolis: Grandeza e Decadência de um Bairro Paulistano”, tese de seu doutorado editada em 1980. A “decadência” caiu do título entre as edições. “O bairro se reinventou e virou cult”, diz Maria Cecília, viúva do historiador Caio Prado Jr. (1907-90), herdeiro de uma das mais tradicionais famílias higienopolitanas.
No livro, que tem muito de genealogia de quatrocentões e nostalgia dos palacetes, Higienópolis sobressai como representante do fim de uma era paulistana, já representada pelas garagens modestas.
Ao contrário de outros bairros nobres, como Morumbi ou Vila Olímpia, é comum que um mesmo quarteirão do bairro tenha apartamentos de 80 m2 e outros de 500 m2 -em vários casos, no mesmo prédio. O comércio de rua ainda utiliza térreos de prédios comerciais e residenciais. Uma barbearia sobrevive no térreo de um edifício residencial dos anos 30 na Angélica, assim como cafés, bares, sapatarias e alfaiatarias funcionam na altura da rua. Quatrocentões e banqueiros dividem a geografia com aposentados, professores e imigrantes de primeira geração (antes judeus, hoje coreanos).

FUGA Como tantos empreendimentos feitos para a elite, Higienópolis nasceu como projeto imobiliário, chamado Boulevard Bouchard -que promovia uma fuga do então elitista Campos Elíseos, que começava a se “popularizar”. Outros loteamentos paulistanos, do Jardim Europa a Alphaville, nasceram graças a essa fuga contra a aproximação das classes médias, algo que se repete até hoje.
Em seus primórdios, a região ainda se chamava Altos de Santa Cecília. Em 1893, os alemães Martinho Bouchard e Victor Nothmann compraram um área de quase 850 mil m2 dos barões de Ramalho e Wanderley. Em 1895, passaram a vender lotes. Marqueteiro até no nome, virou Higienópolis, por contar com água e esgoto, resposta às enchentes e epidemias frequentes.
Três filhas de barões, donas de grandes áreas na região, emprestaram seus nomes às principais vias, Veridiana da Silva Prado, Maria Angélica de Sousa Queirós e Maria Antônia da Silva Ramos. Apesar de se dedicarem à filantropia e à promoção das artes, como se esperava de damas da sociedade, conquistaram projeção rara para mulheres da São Paulo do século 19. Em salões do bairro, urdiu-se a Semana de Arte Moderna de 1922.
Mas a crise do café, o crash da bolsa de Nova York e a ascensão de Vargas foram impiedosos com a elite paulistana. Famílias tiveram de se desfazer de palacetes e fatiar terrenos entre vários herdeiros.
Uma coincidência cronológica beneficiou a indústria imobiliária do bairro durante o desaparecimento dos palacetes. Bons arquitetos europeus vieram para cá, fugindo da guerra e da depressão econômica, e o modernismo brasileiro já tinha alcançado status de luxo para as novas elites. Com isso, Higienópolis virou um playground para jovens arquitetos. Entre os anos 30 e os 60, construíram por lá arquitetos como Vilanova Artigas, Rino Levy, Franz Heep, Jacques Pillon, Artacho Jurado, Victor Reif e os irmãos Roberto.
Com rampas abertas, o edifício Louveira, na praça Vilaboim, e o Piauí, na rua Sabará, até hoje estão livres de grades, talvez pela desconfiança de que arrastões são mais comuns em prédios fortificados no Real Parque ou em Moema.
Paradoxos não faltam. Há um século, surgiu na região o colégio Sion, criado por religiosas francesas devotadas a converter ao catolicismo os “povos de Israel”. Missão fracassada, pois Higienópolis virou o bairro com a maior população judaica do Brasil (25% da comunidade de todo o Estado de São Paulo) e sede da maior concentração de sinagogas no país (14). “Em poucas cidades do mundo, além de Jerusalém, você vê dezenas de famílias de judeus ortodoxos andando pela rua durante o Yom Kippur como no bairro”, sublinha o rabino Michel Schlesinger, presidente da Congregação Israelita Paulista, morador do bairro.
Em um salão alugado do Sion, o Partido dos Trabalhadores foi fundado em 1980; nos anos 90, no governo de Fernando Henrique Cardoso, seu mais ilustre morador, a Vilaboim se tornou quase um anexo de Brasília. A Cúria Metropolitana de São Paulo, representação do Vaticano na cidade, e a organização católica de extrema direita Tradição, Família e Propriedade (TFP) estão nas redondezas.

CRACOLÂNDIA A chegada dos viciados em crack foragidos da cracolândia e o efeito-contágio do Minhocão no esvaziamento do centro comprovam que Higienópolis não é uma cidadela à prova do urbanismo paulistano. Na arquitetura, a decadência tampouco dá sinais de reversão. Um passeio pela Angélica ilustra o percurso ladeira abaixo. Obras do auge do modernismo foram sucedidas por prédios de vidro espelhado azul, ou com paredes de granito-fake para evocar o neoclássico parisiense, ou com ornamentos do pior pós-moderno vernáculo. Todos com muros altíssimos, guaritas portentosas e seguranças vestindo preto.
O Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura acaba de inaugurar “sua moderna sede”, como descrita em anúncio, em um neoclássico pesadão que enfureceria o mais permissivo dos parisienses, com toldos de vidro esverdeado na entrada e o autoexplicativo nome “New England”.
Apesar das várias faculdades, os cinemas e teatros rarearam -e a programação do Cinemark do Pátio Higienópolis é de expulsar cinéfilo para outros bairros. O destino de alguns palacetes sobreviventes é desconhecido. O art noveau da família Rodrigues Alves, que serviu de prisão para o juiz Nicolau “Lalau” dos Santos Neto, está vazio. A casa de Nhonhô Magalhães, onde ficava a polícia antissequestro, espera que o shopping, que o arrendou, lhe dê uso. O palacete do jornalista e engenheiro Alexandre Marcondes Machado, mais conhecido pelo pseudônimo Juó Bananere, com que fazia poesia satírica italianada (é autor de “La Divina Increnca”), virou agência bancária na esquina da Angélica com Higienópolis -nada sobrou de sua memória.
Se anda desprezando o passado, traço paulistano por excelência, ao menos o bairro conseguiu rejuvenescer. Higienópolis não é mais só a Copacabana paulistana. Vários restaurantes e bares foram inaugurados nos últimos anos, atraídos por moradores que reduziram a faixa etária local. Corretores podem chorar pelos estacionamentos escassos, mas isso permitiu bons negócios a artistas, publicitários, jornalistas e estilistas, que arremataram apartamentos espaçosos e sem garagem, ganhando de brinde a vida urbana e a arquitetura de qualidade -essas, sim, de preço inacessível em São Paulo.

Parcos terrenos disponíveis e casarões tombados tornam a região pouco sexy para especulação: o metro quadrado vale menos que o de Pinheiros ou do Itaim Bibi

Apesar das várias faculdades, cinemas e teatros rarearam -e a programação do Cinemark do Pátio Higienópolis é de expulsar cinéfilos para outros bairros

 

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