‘Seu’ Mário: vendendo cadernos e roubando sorrisos na FAU

Notícia do site da USP

Mário Britto é um senhor bigodudo, sorridente e cheio de energia que passou 39 de seus 58 anos trabalhando na papelaria herdada de sua mãe. Um cubículo de 26 metros quadrados ao lado do GFAU, o Centro Acadêmico e Atlética da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP. Mas esta “caixa” parece ter mágica em suas prateleiras: nelas se encontra de tudo – cola, compasso, lapiseira fina, média ou grossa, lenço de papel, folha colorida, reciclada ou transparente, régua, estilete bom, made in china ou barato… Nas palavras do dono, “tenho de tudo, de DVD virgem até camisinha”.

A papelaria, famosa por atender pedidos incomuns, foi instalada ali na Cidade Universitária em abril de 1973. Na época, Mário “era molecão, trabalhava como ping-pong, levando e trazendo produtos”, conta. “Antigamente fazíamos entrega, então acabei conhecendo vários lugares da USP que não conheceria hoje por falta de tempo”. Tempo de fato é um material de luxo para o homem, que trabalha nove horas por dia, de segunda à sexta, desde 1985. Sempre de bom humor, no entanto. Quando questionado por um aluno da Poli sobre o motivo de tanta alegria, responde “ porque eu faço o que gosto. Na vida a gente tem que se divertir, o resto não importa”.

Quem se diverte junto é o consumidor do ‘Seu’ Mário, que ao chegar lá e se depara com uma figura empolgada vestindo uma camiseta com a frase Mário? Que Mário? e um boné vermelho símbolo do famoso personagem de videogames. O boné foi presente de uma bixete (caloura), que sugeriu usá-lo junto com um macacão azul. “Aí vou ter que pagar royalties pra Nintendo”, recusa Mário. A camiseta, que tem nas costas a continuação da piada com a frase Aquele…, fez sucesso e já vendeu 25 peças.

Transformações

Por estar há tanto tempo na FAU, Mário testemunhou e vivenciou mudanças na Faculdade. Na época da ditadura, por volta de 1974, conta que ele e mãe passaram por situações arriscadas. “Quando cheguei aqui a DOPs [Departamento de Ordem Política e Social] levava os alunos e eles não voltavam. Uma vez um militar veio perguntando por um estudante. Menti, na cara dura, que não o conhecia. Era crime acobertar um procurado, mas eu não podia ter isso na consciência”.

Outra mudança que percebe é a da condição socioeconômica dos universitários, que “antigamente não eram tão bem de vida”, avalia. “Durante muito tempo fui conservador, não trabalhava com cartão. Coloquei a máquina e o negócio bombou”, declara, enquanto atende pedidos de vários jovens com cartões de crédito e débito na mão.

Quando um cliente aparece com sotaque estrangeiro, Mário muda e arrisca nas línguas. Segundo ele, engana bem no espanhol e sabe uma ou outra palavra de italiano e francês – nada que sobreviva a mais de cinco minutos de conversa, o suficiente para o comércio. O dono da papelaria recorda que nem sempre a comunidade acadêmica foi tão internacionalizada. Há mais ou menos uma década, recorda, “a FAU fechou convênio com um monte de faculdades do exterior, então agora tem um monte de gringo”. Além dos latino-americanos, que começaram o intercâmbio antes.

Casos e “causos”

As 36.450 horas passadas atrás do balcão de sua papelaria (sim, fizemos a conta) tornaram Seu Mário uma parte integrante da FAU, quase um patrimônio. Amigo dos professores, querido pelos alunos, fala do lugar na primeira pessoa do plural. Ao apontar para a bandeira provocativa em relação à faculdade rival da USP nos esportes universitários, toma partido e sente “saudades do tempo em que nós acabávamos com o Mackenzie”. Não vai às partidas, mas declara que já se sente integrado no espírito competitivo.

Entre tantas memórias, a que destaca é um tanto inusitada. “Entrei em um toillet e ouvi um barulho estranho no banheiro ao lado. Olhei por debaixo da porta e vi quatro pés. Fui embora com medo de ser algum alienígena”, alega, enquanto divide sua atenção entre a entrevista e a fila de estudantes apressados em terminar seus trabalhos.

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