Livros brotam no sertão

Notícia da Revista Piauí

Livros brotam no sertão
Na Bahia, o povoado com a maior taxa de exemplares por habitante do Brasil

por Rodrigo Sombra

O povoado de São José do Paiaiá, no sertão baiano, tem 500 moradores, igreja, escola, praça e duas ruas. “Na de cima, mora a elite; na de baixo, a classe trabalhadora”, descreveu o historiador Geraldo Moreira Prado, 71 anos, o filho mais ilustre e ilustrado da terra. De cada dez habitantes de Paiaiá, três são analfabetos. Metade da população vive na pobreza, com renda de pouco mais de 200 reais por família a cada mês. Quatro famílias formam a elite local.

Numa região de casas geminadas, ruas de pedra e terra, poucos empregos e quase nenhum saneamento, a soberba taxa de 200 livros por habitante – a média nacional não chega a cinco – é a obra local mais frondosa, graças à Biblioteca Comunitária Maria das Neves Prado. Está sediada em um rudemente majestoso prédio de três andares, o único daquela área da caatinga. Já foi apelidado de “Empire State of Paiaiá”, reunindo os quase 100 mil livros, segundo a contagem oficial, da autodeclarada “maior biblioteca rural do mundo”.

Geraldo Moreira Prado alfabetizou-se aos 10 anos, tendo livros de cordel como cartilha. Pisou pela primeira vez numa biblioteca aos 14. Aos 21, mudou-se para São Paulo. Foi a princípio para trabalhar, mas acabou cursando história e depois letras na USP. Militou no movimento estudantil, no qual se especializou na fabricação de coquetéis molotov para serem lançados contra os agentes da ditadura durante os protestos de 1968. Amargou quatro detenções por perturbação da ordem e propagação de ideias comunistas. Mudou-se para o Rio, onde se doutorou em desenvolvimento agrário, virou professor universitário e pesquisador.

Casou-se. E depois se descasou, momento em que viu a necessidade de se desfazer de uma coleção de então 30 mil livros. Tentou vendê-la, mas sebo nenhum quis lhe pagar a contento. Pensou em doá-la para uma universidade pública, mas as tratativas não caminharam bem. Lembrou-se da querida terra natal, São José do Paiaiá, um povoado do município de Nova Soure, a 250 quilômetros de Salvador.

Contatou um sobrinho adolescente morador de Paiaiá, alugou uma casa e despachou a primeira leva de 10 mil livros, transportados num caminhão. Passava das quatro e meia da manhã quando José Arivaldo Prado – o sobrinho de Geraldo, conhecido como Vadinho – deixou o forno da padaria onde trabalhava para assistir ao desembarque dos livros. Juntou gente para acompanhar a novidade. As primeiras centenas de volumes foram abrigadas na garagem da casa alugada.

O sucesso da operação estimulou um segundo lote de livros, algo perto dos 12 mil exemplares. Mas a vizinhança fora alertada pelo Jornal Nacional sobre um furto de obras raras ocorrido em 2003 na Biblioteca do Itamaraty, na região central do Rio de Janeiro, a mais de 1 700 quilômetros dali. Quando uma senhora assistiu à chegada de mais livros – itens raros no sertão –, tratou de denunciar à polícia, convicta de que se tratava das obras furtadas do Itamaraty que vira na televisão.

Desfeito o equívoco, a recém-transferida biblioteca teve de enfrentar o pároco local, ouriçado pela procura de obras como Dona Flor e Seus Dois Maridos, de Jorge Amado. Abriu o sermão numa manhã de domingo advertindo os fiéis sobre a maledicência dispersa nas estantes de aço pecaminosas da casa vizinha à paróquia. Apesar das resistências religiosas e policiais, os demais livros foram enviados pouco a pouco. A biblioteca comunitária ganhou vida e foi batizada com o nome de uma tia do historiador que se dedicara a lecionar no povoado, professora de formação autodidata que era.

A biblioteca cobra 1,50 real de mensalidade, com direito a carteira de leitor associado. As doações foram aumentando e houve necessidade de mais espaço, o que obrigou a construção do “Empire State”. Vadinho, o bibliotecário improvisado, crescido entre tantos livros, abandonou a padaria, cursou letras e descobriu-se poeta. “Escrevo poemas, mas só sobre gatos”, disse.

Cajueirinho, Carrapatinho, Pau de Colher, Cabeleiro e Melancia são povoados vizinhos que mandam alunos para a escolinha de xadrez, para o ateliê de pintura ou para cursos como “Higienização e acondicionamento do acervo Professor Geraldo Prado”, oferecido em dois módulos.

A organização das estantes às vezes surpreende. A Divina Comédia divide prateleira com a Metodologia Aplicada à Administração. Elogio da Sombra, de Jorge Luis Borges, é vizinho de Internet Truques Espertos: Segredos Inteligentes Revelados. A biblioteca possui alguns volumes raros, como a primeira edição de Casa Grande & Senzala, de Gilberto Freyre, de 1933, e as obras completas de Molière, com data de impressão de 1732.

Sem apoio da prefeitura de Nova Soure, dependente dos inconstantes repasses do programa do Ministério da Cultura, a biblioteca é deficitária e recebe colaborações de bom grado.

No ano passado, o crítico literário Antonio Candido, ex-professor de Geraldo Prado na USP, doou títulos de seu acervo pessoal para os moradores de Paiaiá. Acompanhava o envio dos livros uma carta de saudação, emoldurada e colocada em destaque no interior da biblioteca. “Venho por meio desta comunicar-lhe que despachei dez caixas contendo livros e alguns opúsculos, no total de 300 unidades, que constituem uma doação à Biblioteca Comunitária”, datilografou o crítico, em um papel azul, devidamente corrigido à caneta e assinado.

“Informado há tempos a respeito dela por nossa amiga Walnice Nogueira Galvão (que aliás teve a gentileza de me acompanhar à empresa transportadora), avaliei desde logo o alcance e a importância dessa obra cultural, devida à sua iniciativa generosa e clarividente; e tencionei colaborar de algum modo, o que faço agora com prazer e é a oportunidade de manifestar a minha admiração pelo seu trabalho.”

Outra frase atribuída a Antonio Candido já havia sido estampada na fachada da biblioteca. Em azul, lia-se: “O socialismo é uma doutrina totalmente triunfante no mundo.” “Eu ia até botar uma do Marx, mas aí achei que já era dar muita bandeira”, acautelou-se Geraldo Prado. Na última reforma da biblioteca, um pintor conhecido como Magnata fez pouco caso da encomenda – repintar o que ali já estava e adicionar uma proverbial citação de Che Guevara. Pediu um adiantamento pela primeira demão de tinta, embolsou o dinheiro e sem aviso prévio comprou um bilhete só de ida para São Paulo, deixando a fachada da Biblioteca Maria das Neves branca como lhe sugere o nome.

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