Resenha do livro: Da taipa ao concreto – crônicas e ensaios e sobre a memória da arquitetura e do urbanismo, de Carlos A. C. Lemos

Arquitetura como bem cultural

José Tavares Correia de Lira

carlos lemos

Carlos Lemos
Foto Clara Correia d’Alambert

Arte útil, a mais social e material das artes, a arquitetura parece não se prestar muito bem à contemplação desinteressada. Tão logo edificada, com sua presença instantânea na cidade, ela se entrega imediatamente à recepção de massa, promovendo hábitos e atitudes práticas que liberam nossa atenção a seus usos mundanos. Mesmo ali onde não encontramos senão fragmentos de construções do passado, hipóteses de demolição e propostas de espaços futuros, o que mais desperta o interesse pela arquitetura é justamente esse poder de afetar historicamente a natureza e a cultura. Suas implicações sensíveis, existenciais e ambientais, sua capacidade de modelar lugares de permanência, travessia e moradia, e de produzir prazer ou desconforto, comodidade ou transtorno, revelam ao mesmo tempo a potência enorme – por vezes temerária – da arquitetura e sua proximidade da vida comum. O fato é que, não importa quão leigos ou indiferentes sejamos no assunto, as obras edificadas nos tocam diariamente e a milhões de homens e mulheres que habitam o mundo.

É curioso perceber como, a despeito de sua presença e impactos inevitáveis, no Brasil, ao menos nas últimas décadas, os assuntos de arquitetura vêm passando ao largo dos meios de comunicação. Idealizações de cidade e a transformação de modelos projetuais, planos diretores e a conservação de monumentos, a arquitetura de obras públicas e novos empreendimentos imobiliários, concursos e exposições de projetos e obras, congressos, pronunciamentos e publicações especializadas, em detrimento de sua abrangência ou qualidade, não encontram muita ressonância na imprensa, ressentindo-se também da incapacidade dos próprios arquitetos de os projetarem para além de suas redomas corporativas, disciplinares ou comerciais. Poucos são os veículos atentos aos desenvolvimentos da arquitetura, e raros os arquitetos preocupados em politizar as questões de seu ofício e saber, dialogando com a sociedade, liderar ações coletivas ou interferir em agendas governamentais.

Carlos Lemos pertence à última geração para a qual o trânsito corrente entre a universidade e a imprensa foi decisivo na construção de compromissos do intelectual com o debate público, a formação de opiniões e a modelagem de políticas culturais. Se no Brasil esse papel foi tradicionalmente exercido pelas figuras do polígrafo, do bacharel ou do humanista, e mais recentemente por uma elite de intelectuais públicos, poucos foram os que se debruçaram sobre os assuntos de arquitetura. E assim mesmo apenas episodicamente, quando a militância no campo das artes, da cultura e da educação assim o exigiu. Foi esse ao menos o caso de autores como José Mariano Filho, Mário de Andrade, Gilberto Freyre, Anísio Teixeira, Geraldo Ferraz, Rodrigo Melo Franco, Joaquim Cardozo, Mário Pedrosa, Flávio Motta e outros, para quem a arquitetura revelava nexos ideológicos mais amplos com os processos de construção da nação, modernização da sociedade ou atualização cultural e artística do país.

Aqui e ali presente na imprensa do século xix e primeiras décadas do xx, ao que parece a temática arquitetônica só obteve ressonância efetiva quando a própria profissão passou a se investir de responsabilidades técnicas e ambições civilizatórias de máxima amplitude, estimulando os arquitetos a se manifestarem pelos jornais. De Gregori Warchavchik a Carlos Lemos, passando por Flávio de Carvalho, Lúcio Costa, Oscar Niemeyer, Lina Bo Bardi, Vilanova Artigas, Luís Saia, Paulo Santos, Nestor Goulart Reis, Benedito Lima de Toledo, Demétrio Ribeiro, para citar apenas alguns dos mais conhecidos nacionalmente, um perfil híbrido de arquiteto-escritor-intelectual se desenhava no país.

Comprometido com a difusão de ideias e conhecimentos avançados, com a crítica do senso comum e com a identificação de problemáticas cultural ou politicamente relevantes, ele viria a se beneficiar em parte de projetos editoriais inovadores que despontavam no país com a imprensa industrial, em parte de um meio universitário plenamente estabelecido e sensível às novas exigências formativas e às reivindicações de modernidade da profissão. Apesar de, relativamente a outros campos, a arquitetura jamais ter constituído um espaço estável na imprensa, tampouco na crítica ou na recepção, sucumbindo com frequência à ênfase profissionalizante da área e ao dogmatismo ideológico da corporação, no Brasil, entre as décadas de 1930 e 1970, floresceu um tipo de escrita sobre arquitetura, a meio caminho entre a crônica jornalística e o ensaísmo acadêmico, do qual Carlos Lemos e alguns outros arquitetos de sua geração são herdeiros.

Dos 53 textos reunidos nesta coletânea, 47 foram publicados no jornal Folha de S.Paulo. Escritos entre 1972 e 2009 por esse arquiteto formado em 1950 pela Faculdade de Arquitetura do Mackenzie – e desde 1954 atuando como professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (fau-usp) –, eles trazem as marcas de um profissional experiente, atento às questões da construção, significação e uso dos espaços, mergulhado na docência e na pesquisa em história da arquitetura e igualmente comprometido com a produção artística, com a construção de acervos culturais e instituições patrimoniais. Sua fatura, modulada segundo o alcance massivo e a efemeridade do meio, é inseparável de sua perspicácia na eleição de assuntos e estratégias narrativas capazes de despertar o interesse público. A cidade, as políticas urbanas oficiais, as grandes obras do governo, os processos de destruição e reconstrução da fisionomia da cidade, o trato dos monumentos históricos, as ações de preservação, a memória urbana, novas praças e espaços públicos, tipos de habitação e maneiras de morar são algumas das figurações pelas quais a arquitetura e o urbanismo ganham cidadania na imprensa.

Não menos importante é o artesanato retórico do autor. Apelando para a história e para a memória, oscilando entre o passado e o presente, religando materialidade urbana e políticas públicas, a ação dos arquitetos e a dos citadinos, ele parece querer se aproximar de um público não especializado – de gestores públicos e proprietários a cidadãos comuns – por meio de uma grafia mais simples, uma prosa livre, risonha, sensata, provocativa e propositiva, exemplos didáticos e achados líricos, mesmo ao abordar conteúdos polêmicos, defender posições dissidentes ou criticar o poder público, a tecnocracia e a especulação imobiliária.

Da taipa ao concreto fala da ressonância provocada na imprensa pelo conhecimento especializado no momento em que este se depara com as transformações materiais e simbólicas da cidade. Dessa forma, atualiza um compromisso com a popularização da alta cultura que remonta aos anos 1930. O foco da coletânea é precisamente São Paulo, cujo crescimento vertiginoso não deixa rastros muito nítidos de sua história e arquitetura. Esta cidade, espaço de circulação cotidiana do jornal, é também o lugar onde o autor se enraíza e se solidariza com o leitor em seus embates com os processos autofágicos de urbanização.

Sabe-se da enorme ressonância que alguns desses textos obtiveram quando publicados isoladamente, suscitando trocas produtivas entre autor e leitores, controvérsias e inflexões discursivas, bem como a ampliação das pautas editoriais de arquitetura. Aqueles, por exemplo, acerca da preservação de monumentos, do patrimônio ambiental urbano ou da lei do “solo criado” adquiriram tal repercussão que motivaram instituições públicas e da sociedade civil a organizar debates abertos a seu respeito. Imersos, portanto, em suas circunstâncias, os artigos aqui recolhidos aderem à realidade cotidiana dos leitores e às preocupações contemporâneas da coletividade, revelando-nos muito dos eventos, dilemas e disputas que os provocaram.

Carlos Lemos iniciou seu trabalho na imprensa em 1957, como colaborador de periódicos especializados, entre eles AcrópoleAD Arquitetura e Decoração,MóduloC. J. ArquiteturaCasa ClaudiaArquitetoCasa VogueProjeto,Construção em São PauloArquitetura e Urbanismo e Casa e Jardim. Em 1972, atingiu a grande imprensa, escrevendo ou concedendo entrevistas para jornais e revistas como Folha de S.PauloO Estado de S. PauloVisão,MancheteJornal da TardeVejaDiário Popular e IstoÉ.

No entanto, vem provavelmente de seu envolvimento com as temáticas históricas e patrimoniais o enquadramento principal de sua escrita pública. Afinal, desde pelo menos 1966, quando realizou cursos de pós-graduação em restauro e conservação de obras de arte e museologia, e sobretudo a partir de sua gestão como chefe da Seção Técnica de Conservação e Restauro do Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico (Condephaat), entre 1971 e 1980, e como professor de história da arquitetura na fau-usp depois de 1973, Carlos Lemos se tornou um dos brasileiros mais atuantes na reflexão acadêmica e política no setor.

Ligando-se a toda uma galeria paulista de preservacionistas, soube reconhecer na arquitetura do passado uma força memorial e não um fardo, de cujo peso morto devêssemos nos desfazer na marcha para o futuro. Ao contrário, foi essa relação com o passado e o patrimônio histórico que constituiu o eixo de sua intervenção na imprensa.

Este livro é, portanto, tributário de um etos intelectual nascido das campanhas e embates patrimoniais, da consolidação institucional dos órgãos especializados e dos estudos avançados em história da arquitetura, das técnicas construtivas, da habitação e da urbanização em São Paulo e no Brasil.

Os objetos de atenção preferenciais nesta obra evidenciam, aliás, sua proveniência: os caminhos de ocupação do território paulista; os veios de urbanização e os marcos de modernização técnica e estética da arquitetura; os rumos da arquitetura e do urbanismo contemporâneos; as mudanças na arquitetura residencial e nos modos de morar no Brasil, da colônia aos tempos recentes; as práticas de produção arquitetônica populares e eruditas; os lugares simbólicos das coletividades; as ameaças e agressões perpetradas contra os bens culturais; os mecanismos institucionais e jurídicos de salvaguarda; as iniciativas de restauro e tombamento; os conjuntos documentais e fontes iconográficas a serem estudados e preservados.

É fascinante observar como seus objetos de interesse, e mesmo algumas de suas abordagens e interpretações mais sofisticadas com relação a eles, parecem ter emergido das tensões e estímulos intelectuais resultantes do deslocamento permanente do autor entre a imprensa, a universidade, os órgãos de preservação e os museus.

Veja-se, por exemplo, o caso de alguns de seus primeiros livros, comoRoteiro de arquitetura contemporânea em São Paulo Dicionário da arquitetura brasileira, publicados em coautoria com o arquiteto Eduardo Corona em 1963 e 1972, respectivamente. Patrocinados pela revista Acrópole, ambos se alinham ao claro propósito de atingir um universo de leitores mais amplo. Também comprometidas com uma agenda de popularização são suas contribuições à coleção Primeiros Passos, da editora Brasiliense, com O que é arquitetura, de 1980, e O que é patrimônio histórico, de 1981, nos quais os valores estéticos e históricos da arquitetura são remetidos a definições mais gerais travejadas por suas apropriações sociais e simbólicas, no passado e no presente. Outras obras, como Arquitetura brasileira, de 1979, ou seu capítulo para História geral da arte no Brasil, organizada por Walter Zanini, situam-se a meio caminho entre a literatura pedagógica e o compêndio de divulgação cultural ao reformular a identidade cultural e a longa duração da arquitetura no Brasil.

Mesmo em trabalhos mais ancorados na academia – entre eles, sua tese de doutorado Cozinhas, etc., publicada em livro em 1976, sua tese de livre-docência, Alvenaria burguesa, defendida em 1983 e publicada em 1985, e Casa paulista, de 1999 –, a cuidadosa pesquisa histórica e sociológica não esconde preocupações mais difusas com as culturas habitacionais, os modos de vida das populações, o desenvolvimento de padrões espaciais e construtivos, o conhecimento, a produção e o uso das moradias populares, de classes médias e de elite, erguidas ou não com intenção plástica, da fase bandeirista ao ciclo cafeeiro e à era industrial, da taipa de pilão ao concreto armado.

A série de artigos incluídos neste volume foi organizada em três partes. A primeira, “O urbano como caminho”, reúne reflexões do autor que articulam de modo sintético processos territoriais e infraestruturais à história da urbanização, da pequena vila caipira à cidade dos imigrantes e à metrópole caótica do presente. Ao situar as marcas na paisagem decorrentes da penetração colonial no planalto paulista, da expansão da rede de cidades na região, da integração ferroviária e rodoviária do Estado, da transformação dos meios de transporte urbanos com a introdução de bondes, ônibus, automóveis e metrô, da abertura de avenidas, túneis, pontes, viadutos etc., observa processos espaciais de fundo ao povoamento e desenvolvimento de São Paulo.

Na segunda parte, “A cidade como acervo”, o foco é redirecionado à problemática da preservação, alertando seja para o valor patrimonial da arquitetura entre outros acervos culturais, seja para as ameaças a sua salvaguarda promovidas por governos, empresários, proprietários e população, seja, ainda, para as formas de mobilização da sociedade civil ou para as técnicas e políticas de documentação, conservação e restauração dos bens culturais. É talvez nesse momento que palavra e ação são convocadas a enfrentar problemas emergentes ligados às relações entre preservação e planejamento, tombamento e direito de propriedade, à preservação da arquitetura popular e eclética e do patrimônio imaterial, à educação patrimonial, à legislação de mecenato etc.

Na última parte, “A arquitetura como artefato”, o autor se debruça sobre a produção da arquitetura na história. De um lado, ele se detém na escala da edificação e, em particular, na estabilização de novos programas residenciais, refazendo o processo de urbanização de São Paulo esboçado na primeira parte, à luz do longo percurso entre a taipa bandeirista, a alvenaria eclética e o concreto modernista. De outro, acompanha projetos e intervenções recentes na cidade, sobretudo os que interferem substancialmente na fisionomia urbana e nos espaços públicos. É então que discorre sobre a arquitetura de Oscar Niemeyer, de quem foi amigo dileto desde os tempos em que ingressou na carreira como arquiteto-chefe de seu escritório paulistano, Ramos de Azevedo, Victor Dubugras, Ricardo Severo, Lúcio Costa, Oswaldo Bratke, José Zanine Caldas e Vilanova Artigas, entre outros arquitetos, detendo-se também em processos anônimos e projetos de autoria inconfessável.

Respeitando a diacronia dos artigos de cada parte, sua fusão em um volume único pretendeu assim mapear as grandes frentes e estratégias de intervenção de Carlos Lemos no debate contemporâneo, seu papel formativo, seu lugar crítico e sua abertura para a prática. Hoje, quando a ação projetual parece pouco permeável aos grandes desafios sociais, culturais e ambientais, a produção acadêmica apenas começa a se dar conta dos prejuízos da clausura disciplinar e a imprensa passa por sua maior transformação em séculos ante o influxo das novas tecnologias de comunicação, resta-nos rever um desses momentos altos em que o pensamento escapa para o debate – se não em busca de lições, ao menos de uma história que possa ser contada, selecionando e nomeando, transmitindo e preservando um passado e um futuro.

nota

NE
O presente texto é a Apresentação do livro.

sobre o autor

José Tavares Correia de Lira é professor livre-docente do departamento de história da arquitetura e estética do projeto da FAU-USP e diretor do Centro de Preservação Cultural da USP. É autor de Warchavchik: fraturas da vanguarda (Cosac Naify, 2011) e organizador, entre outros, de Caminhos da arquitetura, de Vilanova Artigas (Cosac Naify, 2004, com Rosa Artigas).

Fonte: Vitruvius

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