Prédios de arquitetura brutalista sofrem com falta de manutenção em SP

Notícia da Folha de S. Paulo

VANESSA CORREA
DE SÃO PAULO

O concreto bruto é a cara da cidade. Marcas importantes da paisagem como o Masp (Museu de Arte de São Paulo), o estádio do Morumbi e a rodoviária do Tietê são exemplos do movimento conhecido como brutalismo, que entre os anos 1970 e 1980 arrebatou arquitetos modernistas e virou a chamada escola paulista.

Reconhecer essas obras é fácil, já que não são exatamente discretas: colossos que passam a impressão de inacabados, com vigas e pilares à mostra –e nem pensar em adicionar “frufrus” do tipo “flor de gesso no acabamento da pilastra”. (Pintura sobre o concreto? Frescura, diriam seus idealizadores.)

Mas tamanha brutalidade, agora, está precisando de socorro.

O tempo provou que esses edifícios envelhecem mal se não receberem os devidos cuidados –como “banhos” com sabão neutro a cada dois anos e impermeabilização.

Hoje, muitos desses gigantes “quarentões” estão fora de forma. E começam a se “esfarelar”. A falta de conservação leva a infiltrações e perda de placas de concreto (que podem até cair na cabeça de passantes).

Esse tipo de construção se espalha por toda a cidade. Também está em estações do Metrô, agências de banco estatais como o antigo Banespa e escolas públicas.

O país vivia uma ditadura militar, e obras imponentes como o Tribunal de Contas, na avenida 23 de Maio, foram levantadas para promover o orgulho patriótico. O concreto prometia ser o material definitivo, simples e tão resistente quanto pedra, dispensando manutenção.

Mas algumas obras queimaram a largada. Como o Masp. Pouco após sua inauguração, em 1968, o projeto de Lina Bo Bardi já sofria com infiltrações. Segundo o historiador Alex Miyoshi, as recomendações de impermeabilizar vigas e pilares do museu contrariavam Lina, que não permitiu a intervenção, pois ela tiraria o aspecto natural do concreto.

Nos anos 1980, o espaço chegou a um estado crítico, e rachaduras ameaçaram o acervo. Só aí Lina cedeu: à impermeabilização das vigas. No pacote, o prédio foi pintado em vermelho bombeiro. A cor havia sido descartada no projeto original da arquiteta.

AMACIAR O RUDE

Algumas construções passam por reformas que “amaciam” seu aspecto rude e acabam descaracterizando o brutalismo –imagine vidros espelhados azuis no Theatro Municipal.

Se, com “ajustes”, os problemas do Masp foram resolvidos, outros edifícios continuam bem degradados.

Exemplo de má conservação é o prédio da FAU (Faculdade de Arquitetura) da USP. Há mais de 15 anos a obra de Villanova Artigas está em progressivo processo de deterioração.

É crítico o estado da cobertura. Lonas azuis cobrem o saguão e formam uma espécie de rede de proteção para evitar que alunos e professores sejam atingidos por pedaços de concreto que se soltam lá de cima.

Pedro Taddei, professor aposentado da faculdade, confirma que o drama das “lascas caindo do teto” acontece “desde pelo menos 1998”.

Uma reforma começou neste ano e está prevista para ficar pronta até o fim de 2014, segundo a vice-diretora da faculdade, Maria Cristina Leme.

INVENTARIAR PARA SALVAR

Outra obra a perigo de Artigas é a garagem do Iate Clube Santa Paula, na represa Guarapiranga. Desocupado há mais de 20 anos, com paredes pichadas, o clube teve seu auge nos anos 1960 e 1970, quando rapazes de topete e moças de calça cigarrete circulavam pela piscina com drinques.

A garagem de barcos era conectada à sede por um túnel subterrâneo. A estrutura tem 1,1 milhão de quilos sobre oito pilares que se apoiam em pequeninas esferas de metal envoltas por neoprene –um elefante sobre rodinhas pode servir como analogia.

O arquiteto Maurício Xavier, responsável pelo projeto de reforma, diz que “a estrutura de concreto toda tem que ser recomposta, há ferragem aparente, concreto descascando e as lajes que serão impermeabilizadas”.

A obra está em fase final de aprovação nos órgãos de preservação do patrimônio histórico. Fará parte de um complexo de hotel e centro de convenções, ainda sem previsão.

“Brutos” mais caçulas também penam. O MuBE (Museu Brasileiro da Escultura), de Paulo Mendes da Rocha –brasileiro vencedor do Pritzker, espécie de Nobel da arquitetura–, tem menos de 20 anos de inaugurado e já sofre com goteiras.

De acordo com Jorge Landmann, diretor-presidente do MuBE, o edifício precisa de “recuperação estrutural”. A obra é orçada em R$ 4,5 milhões. Com a Lei Rouanet, empresas que investirem na revitalização poderão deduzir de impostos esse valor.

Norma técnica atual exige que os vergalhões de ferro das estruturas sejam recobertos por uma camada de ao menos 4 cm de concreto. Isso, mais a manutenção regular, evita a deterioração por ação da chuva (especialmente a ácida), da fuligem (ácida também) e de fungos, diz o engenheiro civil Alexandre Tomazeli.

Tido em seu meio como o “bam-bam-bam” dos laudos para edifícios que precisam de intervenções, Alexandre conhece cada manchinha de bolor dos prédios que analisa. Para ele, o estado dos edifícios brutalistas (cerca de 20% dos pedidos de avaliação que recebe) da cidade é “uma lástima”. “Confiou-se por muito tempo que o concreto era perene.”

E cita alguns edifícios do tipo com problemas, como o Centro Cultural São Paulo (que receberá parte das atividades da 9ª Bienal de Arquitetura) e o prédio da Fiesp, na avenida Paulista, com manchas brancas que mostram erosão do concreto.

Um alento surge no momento certo. A prefeitura se organiza para elaborar um inventário da arquitetura modernista da cidade, da qual o brutalismo faz parte.

O professor da FAU-USP Hugo Segawa, que coordenará o projeto, diz que edifícios ecléticos aparentam ser “idosos”, e seu valor é rapidamente reconhecido pela população. “Mas os modernos também já são idosos.”

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