Datalização é o desafio na era da digitalização

Notícia do Estadão.com.br

Organização da massa de dados digitais de acervos foi tema de seminário internacional em SP

25 de setembro de 2013 | 15h 38

Edmundo Leite
 
Não basta digitalizar. Tem que datalizar. A nova expressão ainda nem existente formalmente em português sintetiza qual é o atual desafio dos profissionais e instituições que trabalham com preservação, guarda e divulgação de acervos. O termo, derivado de data (dados em inglês), foi usado pela professora Marcia Lei Zeng, da Faculdade de Biblioteconomia e Ciência da Informação da Universidade de Kent, nos Estados Unidos, em sua palestra no III Seminário Internacional Aquivos e Museus de Pesquisa, realizado semana passada no Sesc Consolação, em São Paulo. A datalização, segundo mostrou Lei Zeng, é a chave para que a enorme massa de conteúdos digitais possa ser organizada de modo a ser encontrada, compartilhada e integrada com outras bases de dados.

Indicando ferramentas, práticas e protocolos já disponíveis, como o Linked Open Data e busca semântica, a professora demonstrou como é possível fazer com que um documento digital possa ser encontrado com mais facilidade e se integrar a outros. Uma página na internet que estiver datalizada com a codificação e classificação corretas de metadados (informações sobre o conteúdo) poderá capturar automaticamente informações de outros sites que acrescentem mais dados àquele conteúdo originalmente isolado. Assim, uma instituição que possui uma carta digitalizada do imperador brasileiro Dom Pedro II poderá agregar ao documento dados de livros publicados sobre ele ou por ele, o verbete da wikipedia ou qualquer outro site que possuir documentos de sua autoria, bem como incorporar um mapa on-line que tiver listado lugares onde ele nasceu ou pelo qual passou. Na mão inversa, um pesquisador que pesquisar sobre Dom Pedro II em outro site poderá chegar à carta digitalizada daquela instituição através dessas outras fontes, e não somente pelo próprio site da instituição ou dos buscadores convencionais disponíveis na internet.

Se a necessidade de datalizar é um consenso, a melhor maneira de fazer isso ainda é uma incógnita. Quantos e quais metadados deverão ser descritos num documento digital, qual normatização seguir, quem colocará os dados e gerenciará esse processo? A mesa do seminário que reuniu a brasileira Ana Pato, que contou sua experiência no período em que foi diretora de projetos da Associação Cultural Video Brasil, e a holandesa Lizzy Jongna, do Rijksmuseum, exemplificou a dificuldade de encontrar um padrão que concilie as necessidades de instituições diferentes. Enquanto o museu holandês chega a ter 400 campos de metadados associados por trás de uma única obra de arte digitalizada, a instituição brasileira especializada em vídeos descobriu, na prática, que pecava pelo excesso com os vários campos que dispunha para pesquisa. A partir da constatação que os usuários se confundiam, o Vídeo Brasil enxugou o cruzamento de informações de sua plataforma.

Questões técnicas à parte, o empolgante relato do sucesso da digitalização dos acervos de obras de arte de duas das mais renomadas instituições européias, o Rijksmuseum e o britânico Victoria & Albert Museum, foi o ponto alto das apresentações do seminário, que em breve estará disponível no site do Sesc.

Heather Caven, coordenadora de Gestão de Acervo e Planejamento de Rescuros do museu inglês, contou animada para uma platéia surpresa como o número de visitantes da tradicional instituição já é muito maior na internet e como isso se reflete também no aumento da visitação tradicional na sede em Londres. A digitalização do acervo mudou o camportamento do público em relação às obras de arte, que já não são apenas apreciadas, mas também compartilhadas, transformadas, editadas e usadas de outras maneiras que não seriam posssíveis sem a digitalização. Lizzy Jongna, que já havia descrito uma situação semelhante no museu holandês, resumiu qual será o maior legado dessa nova forma de acessar os acervos: “Queremos que o nosso acervo inspire as pessoas a criar coisas novas.”

 

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