General Jardim, no centro de SP, é a rua dos arquitetos e do chorinho depois do expediente

Notícia da Folha de S. Paulo

VANESSA CORREA
DE SÃO PAULO

Ocupar um escritório no prédio do IAB (Instituto de Arquitetos do Brasil) de São Paulo tem destas coisas: não se surpreenda se, no meio do expediente, você esbarrar com o arquiteto e lenda viva Paulo Mendes da Rocha, 84, em busca de um cigarrinho para filar.

Thiago Natal, 34, sócio do Obra Arquitetos, desfruta do benefício desde 2007. Comprou uma sala em frente à de Paulo Mendes e tem o hábito de manter as portas sempre abertas. Os dois até já fizeram parceria num projeto de restauro no auditório da IAB.

Mais importante do que estar no prédio da IAB é estar na rua General Jardim, que virou uma espécie de “arquitetolândia” paulistana. A via começa quase na praça da República, passa por baixo do Minhocão e chega até a quatrocentona Higienópolis. Nesses sete quarteirões, são cerca de 50 escritórios de arquitetura.

Peixes grandes como Piratininga (responsável pela modernização da biblioteca Mário de Andrade) e Una (que planeja o novo parque Dom Pedro). Mas também escritórios “novatos” como o Geral –espaço quase sem divisórias compartilhado por ao menos 14 jovens profissionais, que trabalham em duplas ou “carreira solo”.

O IAB registra cerca de 250 arquitetos com endereço de trabalho nas cercanias da General. Também estão ali editoras como Cosac Naify e RG (com títulos na área), fora fotógrafos especializados, designers, cenógrafos, ilustradores e uma nova escola.

Inaugurada em 2002, a Escola da Cidade impulsionou uma terceira onda arquitetônica na rua, segundo José Armênio, presidente do IAB-SP e sócio do Piratininga.

PRIMEIRA LEVA

Armênio conta que, ao ser inaugurado, em 1953, o prédio do instituto deu teto a bambambãs como Vilanova Artigas (que projetou a Faculdade de Arquitetura da USP, a FAU). Até vir o regime militar. As ideias “subversivas” do grupo aglutinado na área não fez da General o xodó dos generais.

Ligado ao clandestino Partido Comunista, Artigas chegou a ser afastado da FAU e exilado no Uruguai.

baixo general

Após a redemocratização, foi a vez da segunda onda de escritórios, entre eles o Piratininga de Armênio, abrir sede ali. Havia a proximidade com dois importantes cursos (a graduação do Mackenzie e a pós da USP).

Hoje é tudo no mesmo quadrado: arquitetos dão aulas nos cursos, e alunos estagiam no entorno. Daí a piada maledicente: a Escola da Cidade teria sido criada para fornecer mão de obra para “o pessoal da General”.

Intrigas à parte, para Armênio o barato é encontrar por lá “um lugar como poucos no Brasil, onde as pessoas se encontram na rua, colaboram”. Espécie de microversão tropical da Paris dos cafés, onde intelectuais criaram revoluções sociais e artísticas na virada do século 20.

“Os escritórios daqui produzem uma arquitetura mais vinculada à cidade”, afirma Gustavo Cedroni, 35, sócio do Metro. E viver SP é que é “lifestyle”, diz o povo da General. A começar por eles próprios, que rejeitam a ideia de pessoas isoladas num gigante de vidro com ar-condicionado.

Entre arquitetos de megaescritórios (para encontrá-los, vá às avs. Berrini e Faria Lima), há críticas ao “Baixo General”: a ideologia falaria até mais alto do que os projetos.

Preços mais em conta também ajudaram a atrair profissionais como Gustavo. “A gente veio em 2003 da Vila Madalena, para ter uma sala maior com aluguel mais barato. O bairro era muito deteriorado, bem diferente do que está hoje. Não tinha muitos serviços, lugar para comer bem, e a noite era mais barra pesada.”

Essa realidade vem mudando, constata o arquiteto, que mora perto do trabalho. “Aqui tem feira, costureiro… Clima de bairrinho mesmo.”

“O centro tem uma vida urbana que nos interessa. Uma diversidade de estabelecimentos, pessoas, espaços públicos”, diz Fernanda Barbara, 47, do Una. Ela e os quatro sócios dão aula na Escola da Cidade e moram na região. “Venho e vou a pé para casa, ando com meus filhos na rua.”

Foi do escritório de Fernanda que saiu o projeto para um novo parque Dom Pedro, “pensado para dar ao lugar uma função de parque mesmo, onde as pessoas queiram ficar”. Está em discussão na prefeitura e, se implantado, vai mudar a paisagem local com um grande espelho d’água.

Quando você junta um monte de pessoas com interesses em comum, uma coisa leva a outra até tudo acabar em samba e cerveja: duas quintas-feiras ao mês, vários arquitetos largam o batente e pegam em instrumentos para tocar Pixinguinha e Jacob do Bandolim numa roda de chorinho.

Thiago Natal (aquele que está porta a porta com Paulo Mendes da Rocha), por exemplo, reencontrou na área colegas da USP e montou uma banda.

Desde agosto, o bar entre a Escola da Cidade e o prédio do IAB recebe o chorinho dos arquitetos. A calçada fica tomada por fãs da flauta de Jung (coreana que tirou o primeiro lugar no vestibular da FAU), do violão de Thiago e do bandolim de Vítor.

Mas, além de chorar na música, “arquiteto chora muito no preço”, diz Alex Sorriso, gerente do lugar.

E no dia seguinte tudo volta ao normal. Capaz de “seu Paulo Mendes” passar como de costume ali, para comprar um maço de cigarros e tomar um cafezinho, enquanto observa o movimento dos alunos que devoram um lanche de queijo, salame e tomate. Sanduba batizado, aliás, de “professor”.

Veja lista dos escritórios instalados na General Jardim:

Nº 314
Escritórios de arquitetura:
Bruno e Emerson
Camila Toledo Fabrini
Haron Cohen
Helene Afanasieff
Lopes Dias
Minoro Naruto
Obra
Paulo Mendes da Rocha
São Paulo Criação

Outros
Bookstore (livraria especializada em arquitetura, no térreo)
IAB-SP (Instituto de Arquitetos do Brasil)

Nº 482
Escritórios de arquitetura
Apiacás
Ateliê Urbano
B Arquitetos
Centro
Miguel Góes Arquitetura e Design
MMBB
Orbi
Piratininga
SIAA
Zemel+

Outro
Projeto (revista de arquitetura)

Nº 595
Escritório de arquitetura
Estúdio MB

Nº 618
Escritórios de arquitetura
2SMC
Cássia Cavani
Celso Longo
Daniel Trench
Flávio Rezende de Magalhães Castro
Ponto Arq
FC Studio

Outros
Andres Sanches, Cadão Volpato, Paola Bianchi, Coca Albers, Roberta Cardoso (coletivos de ilustradores, designers, artistas)
Vista Plotagens (impressões em tamanho grande)

Nº 633
Escritórios de arquitetura
AA
Bacco
BVY
Geral (coletivo de 14 arquitetos)
Zehbra

Nº 645
Escritórios de arquitetura
Corsi e Hirano
Nelson Kon
Nietsche
Urdi

Outro
Vitruvius/ RG

Nº 703
Escritório de arquitetura
Metro

Nº 770
Escritórios de arquitetura
Cosac Naify
Guedes Pinto
Tetra
Tito Lívio Frascino
Una

Outro
Espaço e Tempo (assessoria em regularização fundiária)

Nº 808
Escritório de arquitetura
Basiches

Nº 846
Escritório de arquitetura
Sandra Piccioto

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