Artigo da revista “Espaço Aberto” sobre a Profa. Dra. Lara Leite Barbosa, da FAUUSP

Fonte: Revista Espaço Aberto

Do nomadismo da literatura para a vida pessoal

Por Giovanna Gheller
O tema, tão presente nos estudos da docente da FAU, é visto nas cidades pelas quais passou e nas viagens que realiza nas horas vagas

Lara Leite Barbosa é professora do Departamento de Projetos da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) e uma das ganhadoras do Prêmio Jabuti na edição de 2013. Em terceiro lugar na categoria Arquitetura e Urbanismo com o livro Design sem fronteiras: a relação entre o nomadismo e a sustentabilidade, da Editora da Universidade de São Paulo (Edusp), a docente teve consagrado o fruto de sua tese de doutorado, que recebeu influências das pesquisas exercidas desde a época da graduação.

“O Jabuti foi uma grande surpresa”, diz Lara. Quem inscreveu sua obra para o prêmio foi a Edusp, que cuidou do trabalho e o publicou. “Obviamente eu tinha muita vontade de me inscrever, mas não atinei para o prazo. Só soube que estava inscrita quando recebi o e-mail dizendo que estava entre os dez finalistas.” Junto com ganhar um Jabuti, um dos maiores privilégios que a docente vê em estar entre os três colocados é poder estar próxima a nomes como Benedito Lima de Toledo e João Filgueiras Lima, primeiro e segundo lugar, respectivamente.

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Durante as pesquisas para o doutorado, a docente passou três meses no exterior, e a cidade de Los Angeles, nos EUA, estava inclusa no roteiro

Lara nasceu em 1976 na cidade de Americana, interior de São Paulo, onde morou por cerca de um ano até se mudar para a cidade vizinha, Campinas. Lá viveu sua infância, de onde tem boas recordações sobre brincar de desenhar a giz no asfalto da rua o projeto daquilo que seria a sua casinha ideal. Já na adolescência, a família mudou-se novamente, dessa vez para Ribeirão Preto, a pouco mais de 300 quilômetros da capital. Atualmente o município faz parte dos roteiros de fim de semana da professora, que viaja para visitar a família desde que saiu de casa, aos 17 anos, para estudar Arquitetura e Urbanismo na Escola de Engenharia de São Carlos. “Tive várias andanças, até por isso o nomadismo está presente em meu trabalho”, conta.

Na época, o curso era um departamento da EESC, o que mudou em 2010, quando se tornou o Instituto de Arquitetura e Urbanismo (IAU). Ao contrário de muitos que optam pelo curso, a docente e pesquisadora não tinha muita habilidade para o desenho. Mas a criatividade nas brincadeiras de infância e o gosto por organização espacial já denunciavam a carreira que Lara escolheria quando mais velha, e o trabalho do tio materno, único arquiteto da família, também exerceu grande influência na hora decisão. “Gosto de organizar as coisas, sou meio sistemática, tanto que ingressei na área acadêmica, que é mais teórica”, diz. O interesse pelo ramo acadêmico surgiu logo na faculdade, quando Lara aproveitou a oportunidade de fazer iniciação científica no grupo de pesquisa em habitação, GHab, orientada pela professora Akemi Ino, onde pôde trabalhar com esquadrias de madeira de reflorestamento – o que futuramente lhe renderia ideias sobre sustentabilidade.

Também na graduação, participou de monitorias oferecidas por professores e aproveitou todas as oportunidades que teve para trabalhar com eles e conhecer seu modo de operar. “Os professores não tinham uma atitude tão paternalista, e esta é uma didática que eu considero muito positiva, que foi o que me ajudou a crescer. Fazem com que sejamos nós os responsáveis por conseguir fazer nossos relatórios, ir atrás, aprender a fazer plano de pesquisa. Você é obrigado a se virar, a aprender procurar onde está a informação para realizar seu trabalho.” A metodologia dos grupos de pesquisa, que exige autodisciplina para lidar com o relativamente longo período de tempo, e, ao mesmo tempo, manter o ritmo de produção, desde cedo encantou a professora. Conta: “Ao trabalhar em grupos em que um discute o trabalho do outro e as pesquisas estão inter-relacionadas, a gente consegue fazer trocas produtivas entre os resultados das pesquisas dos colegas”.

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Lara (de vermelho) com a turma da graduação, na EESC, em 1996

Permaneceu moradora são-carlense durante o mestrado, que fez no grupo de pesquisa denominado Nomads, coordenado pelo professor Marcelo Tramontano, a quem Lara tem como uma grande referência para seu trabalho. Logo que concluiu o mestrado, a professora passou em um concurso para ser docente na Universidade Federal de Uberlândia. Por isso, morou durante um ano na cidade, onde não conseguiu se adaptar, em especial por estar muito distante de seus parentes e amigos. Nessa época surgiria, então, uma oportunidade para trabalhar no Istituto Europeo di Design, o que coincidentemente foi próximo à quando foi aprovada para o doutorado Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, que seria difícil de ser realizado à distância. Pronto. Já tinha motivos suficientes para se mudar para São Paulo.

Tornou-se doutora em janeiro de 2009, poucos meses antes de passar no concurso para ser docente da FAU. “Por mais que pareça rápido, intercalei meu mestrado e meu doutorado com trabalhos em escritório também. Nos escritórios foram períodos bem curtos, a pressão do modo de trabalho não me agradava. Mas, ainda assim, não emendei uma pesquisa na outra.” Como uma linha sucessória de estudos, iniciação científica e mestrado tiveram uma ligação direta com o material de trabalho do doutorado, um misto dos dois que culminaria no ganhador do Prêmio Jabuti Design sem fronteiras – a relação entre o nomadismo e a sustentabilidade.

Nos finais de semana, quando não vai encontrar o namorado na praia, Lara vai para Ribeirão ver a família. “Fim de semana é importante para espairecer, porque em São Paulo a gente enlouquece.” Em decorrência de problemas na coluna, pratica atividades físicas com frequência. Gosta de andar de bicicleta e fazer pilates, e acha musculação algo muito monótono. Também procura almoçar de vez em quando com os amigos, no meio da semana mesmo. Tem nessa quebra de rotina um equilíbrio que a ajuda diante da vida solitária que leva o pesquisador. “Mas, de certa forma, essa solidão também pode ser muito estimulante para a escrita. Tem uma combinação interessante.”

Daqui para a frente

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Os sobrinhos João Lucas, Agnes e Cecília são alguns dos que levam Lara de volta a Ribeirão Preto

Lara acredita estar em um período muito fértil e feliz de sua carreira. Há pouco tempo recebeu a assinatura de um convênio de pesquisa para subsidiar seu projeto atual: trata-se de uma atividade pioneira na FAU, em que uma instituição americana chamada Architecture for Humanity, financiada pela Alcoa, apoia algumas iniciativas de pesquisa que visam à construção de projetos voltados, exatamente, para arquitetura humanitária. O projeto de protótipo inscrito, que a professora executará com seus alunos de grupo de pesquisa, é de um banheiro móvel, “um banheiro temporário para situações de emergência”. O município de estudo, desde 2010, tem sido Eldorado, próximo à divisa com o Paraná, que sofre com enchentes recorrentes, quase todos os anos, em diferentes graus. “O que a gente percebeu é que são utilizados edifícios públicos – ginásios, escolas, igrejas, centros comunitários – como  abrigo temporário, então pensamos em algo para aquele período de 7 a 15 dias, mais ou menos, em que a população precisa sair de casa por causa da invasão de água”, conta a professora. O grupo, denominado Núcleo Habitat Sem Fronteiras, ou Noah (“Noé”, em inglês, em referência bíblica àquele que, com sua arca, salvou a Criação do Dilúvio), pretende fazer o protótipo do banheiro em um contêiner justamente para que possa ser transportado de um lugar para o outro. Como conta Lara, a ideia é começar a prototipagem ao longo de 2014, testar e ter resultados e análises sobre a experiência até o final dos três anos estipulados para o trabalho.

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