Morre aos 85 anos o arquiteto David Libeskind, autor do Conjunto Nacional

Notícia da Folha de S. Paulo

RAUL JUSTE LORES
DE WASHINGTON

10/04/2014 09h58

O arquiteto David Libeskind, reponsável pelo projeto do Conjunto Nacional em São Paulo, morreu nesta quarta-feira (8), aos 85 anos. Ele sofria de mal de Parkinson há mais de 20 anos.

David Libeskind nos deixou uma visão do que São Paulo poderia ter sido: uma cidade com menos trânsito, mais segura e, sem dúvida, mais generosa.

Há quase seis décadas, o arquiteto desenhou o Conjunto Nacional, quando tinha apenas 25 anos de idade. O complexo da avenida Paulista com rua Augusta tem tudo aquilo que os monstrengos de Nova Faria Lima, Berrini ou Marginal Pinheiros nem sonham: uso misto, com escritórios, apartamentos e comércios no térreo, a ousadia de usar os mesmos materiais das áreas públicas nas áreas privadas, sem muros ou barreiras.

Com restaurantes, lojas, livrarias, bancos e farmácias, produziu uma das calçadas mais vivas e seguras de São Paulo de dia, de noite e aos fins de semana. As entradas para carros espertamente ficaram nas ruas secundárias —nas largas calçadas principais, espaço para o transporte público. As marquises que protegem horizontalmente as calçadas contrastam com o espigão bastante recuado.

Apesar do pé direito altíssimo, consegue ser aconchegante e convidativo. A rampa generosa leva ginga até o terraço-jardim. Rolezinho lá sempre existiu e jamais causou pânico.

Ao contrário dos prédios “inteligentes” que o PIB mais globalizado paulistano tem erguido ultimamente no Itaim e na Vila Olímpia, sem a menor conexão com a rua e onde a única saída para seus usuários é pegar o carro, no Conjunto Nacional bom mesmo é andar a pé.

Nascido em Ponta Grossa e criado em Minas Gerais, Libeskind teve o pintor modernista Guignard como mentor e foi também pintor e designer gráfico. Como arquiteto, ainda desenhou e construiu (em seu lado de empreendedor) no final dos anos 50 e início dos anos 60 edifícios residenciais em Higienópolis (como Arper, Arabá e Alomy) e casas no Pacaembu e nos Jardins. Desenhou escolas e bancos no interior do Estado e prédios bem menos importantes nos anos 70 e 80, sem repetir o impacto do Conjunto Nacional, sua obra máxima.

A lenda diz que ele chegou por último, e fora do prazo, ao concurso privado de arquitetura realizado pelo empresário argentino (de origem húngara) Pepe Tjurs, que queria construir um hotel ali na Paulista. O projeto foi impedido pela prefeitura, em uma história acidentada que lembra a do Copan, finalizado anos depois, e teve que ganhar as feições atuais.

Mas quantos paulistanos conhecem a história de Libeskind ou ouviram falar de seu nome? Sua história se perdeu, tanto quanto os concursos privados de arquitetura ou os edifícios generosos e abertos ao entorno.

Bem que, para honrar o seu legado, a rica administração do Conjunto poderia se livrar dos aparelhos de ar condicionado que poluem sua fachada. Mas, diante do feito urbanístico de Libeskind com um só prédio, a estética fica em segundo plano.

Ruy Ohtake passa Paulo Mendes em número de bens tombados

Notícia do Blog Seres Urbanos – Folha de S. Paulo

Ruy Ohtake nem sempre foi um arquiteto de obras extravagantes e coloridas. Têm sua assinatura uma série de residências de concreto aparente austeras e racionais, alinhadas com propostas do modernismo arquitetônico que vigorou até meados dos anos 1970.

Pois é a produção dessa fase brutalista de Ohtake que recebe agora o mais alto grau de reconhecimento da cidade de São Paulo. Seis casas projetadas pelo arquiteto foram tombadas, sem alarde, em dezembro do ano passado e estão protegidas contra alterações.

Com a decisão, Ohtake ultrapassa Paulo Mendes da Rocha em número de imóveis tombados em São Paulo: sete contra seis do prêmio Pritzker (contando a intervenção de Ruy no palacete Conde de Sarzedas e a de Paulo Mendes na Pinacoteca). São os arquitetos vivos com mais obras protegidas na cidade.

Tudo indica que Ohtake também é campeão entre os modernos (veja ao final desse post porque ainda não consegui confirmar essa informação). Está à frente de Rino Levi (seis obras tombadas) e de Vilanova Artigas (cinco obras), precursor da chamada escola paulista, na qual “se formaram” Paulo Mendes da Rocha, o próprio Ruy e toda uma geração.

A proteção do patrimônio moderno edificado da cidade é uma das grandes preocupações do Conpresp hoje. Seminários e debates com especialistas de outros órgãos e de universidades estão sendo travados continuamente para estabelecer conceitos e diretrizes que formem uma política de preservação específica para esses imóveis.

Casas como a residência Rosa Okubo já estão com 60 anos de idade ou mais: são velhinhas modernas. Mas, diferente das construções ecléticas, cheias de ornamentos, os imóveis modernos não se parecem históricos ao olhar desavisado ou leigo, o que torna mais difícil legitimar sua preservação entre a população.

E que história conta então essa produção agora tombada de Ruy Ohtake? Entre outras, a história de uma arquitetura paulista preocupada com questões sociais, com as condições dos trabalhadores das obras, e que buscava soluções racionais para a produção em escala de habitações de qualidade.

As casas

A arquiteta e técnica da prefeitura Dalva Thomaz elaborou um estudo com 118 páginas e diversas fichas para embasar a decisão dos conselheiros do Conpresp (o órgão do patrimônio municipal). No texto, ela analisa minuciosamente cada imóvel, e mostra o diálogo deles com a obras de outros autores do período. Segue um (minúsculo) resumo do texto de cada um das casas. Por sua qualidade, o trabalho da técnica em breve será preparado para publicação em livro.

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