Ciclofaixas: é preciso implantar para corrigir

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Alvo de guerra entre motoristas e ciclistas, as malhas cicloviárias de São Paulo têm erros, mas o melhor caminho é continuar investindo nelas

Karen Lemos noticias@band.com.br

Com a entrega de mais 2,7 km de malha cicloviária graças à inauguração da ciclovia na Avenida Paulista no último dia 28, a prefeitura de São Paulo já totaliza 334,9 km (dos 400 km previstos para o ano) de rotas para as bicicletas.

A implantação de uma ciclovia no cartão-postal da cidade, que muitas vezes serve de modelo para o resto do país, é o símbolo da vontade de transformar a bicicleta não apenas em uma opção ou alternativa para o trânsito caótico, mas em um meio de transporte efetivo, que chega para somar.

O difícil, no entanto, é fazer com que todas as peças da mobilidade urbana – incluindo o próprio ciclista – aprendam a conviver um com o outro em harmonia. Especialistas no tema consideram esse impasse normal, mas ressaltam a importância de se seguir adiante.

“Existe agora a necessidade da educação do trânsito voltada para o ciclista. Não só para o motorista, na hora em que ele tira a habilitação, mas também para quem anda de bicicleta e que, muitas vezes, não conhece as leis de trânsito”, destaca Roberto Braga, coordenador do laboratório de planejamento municipal da Unesp. “O pedestre também entra nessa equação; ele precisa se atentar aos carros e também a bicicleta, bem como cobrar o respeito pelo seu espaço.”

Professor na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, Alexandre Delijaicov considera “louvável” os esforços da prefeitura que, na gestão Fernando Haddad, implantou 238,3 km de malha cicloviária desde junho de 2014. Mas só isso não basta.

O Brasil não tem normas técnicas para ciclofaixas. O que temos vem da Europa, cujo relevo por vezes é mais favorável do que o da capital paulista.

No entanto, na opinião dos especialistas, a prefeitura pode aprender com seus erros e, para isso, é preciso denunciar, fotografando e informando a prefeitura sobre irregularidades encontradas nas malhas destinadas às bicicletas.

“É algo que vai se aperfeiçoando. A implantação das ciclovias vai gerar uma série de novas demandas não só no que diz respeito a correção de vias como também na criação de dispositivos a favor do ciclista, como os paraciclos (suportes que permitem estacionar as bicicletas) em praças, calçadas e nas empresas, incentivando o trabalhador a trocar o carro pela bicicleta”, sugere o geógrafo Roberto Braga.

Implantar e corrigir 

Carros estacionados onde deveriam passar bicicletas, árvores ou postes no meio das ciclofaixas, término abrupto da malha cicloviária são alguns dos problemas que precisam ser enfrentados com paciência pelos ciclistas.

Na visão de Braga, entretanto, é preciso implantar para corrigir. “Precisamos entender também que nem todas as vias são ideais para o ciclista. Assim como não podemos entrar com o carro na contramão, fica inviável pedalar, por exemplo, em uma das marginais da cidade.”

Com algumas ressalvas, Alexandre Delijaicov considera a implantação correta. “Em avenidas mais movimentadas como, por exemplo, a Faria Lima, temos ciclovias [espaço segregado para fluxo de bicicletas] e um espaço amplo para pedalar, o que é o mais ideal naquele trecho.”

As subidas e descidas de São Paulo, na concepção de Alexandre, não são uma justificativa para a inviabilidade do uso da bicicleta na cidade. “Com ajuda de marchas, essas subidas ficam tranquilas”, observa.

Já as ciclofaixas (apenas uma faixa pintada nas vias) ou ciclorrotas (caminho apenas sinalizado para o ciclista) entre carros ou no meio de movimentadas avenidas podem representar um risco menor se houver respeito entre motorista e ciclista. “Se cada espaço for respeitado, a segurança está garantida”, ressalta Alexandre.

E quanto às longas distâncias? São Paulo, como sabemos, é uma das maiores cidades do mundo. “Nesse caso, vejo a bicicleta como um auxilio no transporte público. Por isso é importante a integração de ciclovias com estações de trem, metrô e corredores de ônibus. O usuário pode muito bem fazer o trajeto de bicicleta até uma estação, pegar o metrô e concluir novamente com a bicicleta”, aponta Roberto Braga.

O metrô de São Paulo já conta com vagões destinados aos ciclistas. Ainda assim, é possível alugar uma magrela em algumas das estações de bicicletas públicas pela cidade.

Conselhos da cidade da bicicleta 

Ex-morador de São Paulo, Roberto Braga vive atualmente em Rio Claro, no interior do Estado, onde dá aulas na unidade da Unesp da cidade. Rio Claro é conhecida como a cidade das bicicletas por possuir uma das maiores frotas de bicicletas por habitante do país. É a segunda, depois de Joinvile, em Santa Catarina.

“Senão fosse pela bicicleta, a situação aqui seria bem pior”, avalia o professor que já chegou atrasado a compromissos por ficar preso no trânsito dentro de um carro. ”Muitas pessoas que se mudam para Rio Claro percebem isso e, mesmo não tendo o costume de andar de bicicleta, acabam adotando esse transporte.”

Além de uma alternativa para o trânsito, a bicicleta também traz benefícios para a saúde e é sinônimo de uma relação mais ativa com a cidade. Quesitos que fazem especialistas crerem na aceitação das ciclovias e ciclofaixas em longo prazo.

Braga acredita também que, com o tempo, os paulistanos vão adotar esse costume. “Lembro-me de quando ninguém usava o cinto de segurança, mesmo no banco da frente. Quando eu era criança, meu pai comprou um carro e cortou o cinto de segurança fora, dizendo que não era necessário. Hoje, o uso do cinto de segurança é algo automático para o motorista. Qualquer novidade causa estranhamento, o processo será lento, mas eu vislumbro um futuro em que o paulistano ache a bicicleta a coisa mais normal do mundo e até se aventure a pedalar por aí”, torce Braga.

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