‘Os tiros não paravam’: leia relato de professor que testemunhou ataque

Notícia da Folha de S. Paulo

O professor José Lira, da FAU-USP (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo), jantava na sexta-feira (13) com um grupo de amigos brasileiros no restaurante Le Petit Cambodge, um dos pontos atacados em Paris. Dois de seus companheiros foram feridos. Ele publicou um relato sobre o ataque em seu perfil no Facebook, reproduzido na íntegra abaixo:

“Nessas horas parece que tudo nos escapa. Não sabemos o que fazer, o que pensar, não sei o que dizer, mas muitos amigos me escrevem, preocupados, as noticias terríveis aqui de Paris amplificam-se com a distância, também graças à voz dessa mídia muito ruim hoje no Brasil, nos ouvidos desse público que gosta de tragédia, de sangue, de medo. Teve gente que até inventou que um arquiteto brasileiro morreu nos atentados.

Escrevo pra dizer que estou bem, e compartilhar um pouco do que sinto. Talvez isso lhes ajude e me ajude a pensar um pouco, talvez a sentir um pouco mais de perto o que se passou. Ainda não tive condições de ler muito sobre o que ocorreu, e confesso que me choca a maneira ora abstrata, ora apelativa como se trata essas noticias. O fato é que não consigo esquecer o olhar frágil mas sereno das vítimas ao meu lado ontem à noite.

Passei um fim de tarde de sexta-feira adorável na companhia de dois ex-alunos da FAU, a quem foram se juntando outros amigos e amigas, quase todos brasileiros, arquitetos, e decidimos ir jantar no Le Petit Cambodge, um restaurante muito gostoso, numa parte alegre, juvenil, descontraída no 11eme.

Por volta das 21h30, quando já terminávamos de comer, começaram os estampidos. Estávamos numa mesa à calçada, o som da metralhadora muito próximo, vi faíscas do outro lado da calçada. Juro que pensei que eram bombinhas de São João, uma girândola talvez, que poderia fazer parte de alguma brincadeira cenográfica nesse bairro apinhado de artistas e de gente animada, e achei meio estranho as pessoas saírem correndo. Que exagero! Mas os tiros não paravam e começaram a atingir os pratos e as garrafas em toda parte e impulsivamente lancei-me no fluxo das pessoas que corriam do restaurante para um supermercado ao lado. Lá dentro, dei-me conta que estava com dois de meus amigos, dos outros cinco não sabíamos.

Ao fundo, éramos umas 20 pessoas, ninguém sabia o que se passara. Um de meus amigos sangrava, talvez de estilhaços que atingira-lhe a testa. Dez minutos depois, chegaram os bombeiros e saímos, depois a polícia, como de praxe truculenta e insensível. A cena é indescritível. Um holocausto digno do velho Camboja. Não sabia pra onde olhar, pessoas pelo chão, grupos de amigos consolando os seus feridos, pessoas chorando, algumas pessoas já mortas sozinhas, outras quase morrendo. Procurávamos por nossos amigos. Vi uma delas ao chão apoiada por seu amigo francês, também muito ensanguentado. Aproximei-me dela. Uma jovem linda, um corpo pequeno, uma pele fina, bastante ferida, que me dizia serena, em português: “Eu preciso sair daqui, preciso ir para um hospital.”

Tentávamos consolá-la, acariciá-la, ficar ao seu lado enquanto o socorro não chegava. Os bombeiros a ajudaram com o oxigênio e a manta, mas não sabiam quem estava pior, não sabiam o que fazer. Outros dois amigos apareceram bem e nos levaram a um de meus ex-alunos, um jovem incrível, pessoa da cepa mais preciosa, que estava estirado no interior do restaurante.

Ele estava muito machucado, mas acordado, meus amigos ao seu redor, ajudando-lhe como podíamos, ele repetindo conosco que ia se manter firme. Vez em quando eu tremia, suplicava por socorro médico, olhava para um lado e para outro e encontrava aqueles olhares serenos das outras vítimas, talvez as únicas pessoas que meio em choque, meio na modéstia ou resistência das pessoas vulneráveis, olhavam aquele movimento como anjos, esperando. processando. olhando o mundo do alto, talvez, mais do que nós, estarrecidos com esse mundo cada dia mais terrível, mais intolerante, mais cheio de ódio, de ressentimento, de pavor, de desespero.

Não conseguia me mexer pra ajudar os outros, as outras, corpos tão frágeis, mais e menos feridos, com seu olhar atento a tudo o que se passava. Estávamos magnetizados pelo objetivo único de salvar nosso amigos, e os bombeiros e policiais sem saber quem resgatar antes, quem estava pior, dizendo-nos o tempo todo: “Há 10 mortos, há 20 mortos, há 40 feridos, patientez!”

Não vou entrar na questão agora, mas é estranho ver tanta segurança, tantos militares e policiais pelas ruas de Paris, e tão pouco preparo para lidar com as vítimas eventuais do que eles tanto temem. Não vou entrar nisso, porque só quero lhes dizer que o que me preocupa mesmo, e cada vez mais na vida, é o sentimento no singular, a dor no singular, de gente no singular. Algo tão difícil de transmitir, de co-sentir como sabemos, e também (e não apenas) por isso tão negligenciada pelas análises, pelas notícias, pelos dirigentes, pelos agressores, pelas pessoas e grupos, acostumados a falar de dezenas, de centenas, de milhares.

Não falo de suas personalidades, se são inteligentes ou não, legais ou caretas, felizes ou nem tanto, bem sucedidas ou frustradas. Mas de seus corpos, sua dor, seu olhar, sua fragilidade, sua ínfima condição, de nossa pele que se rasga facilmente. de nossos ossos que se partem. mesmo. de nossos órgãos que às vezes falham. de nossa respiração, entrecortada às vezes. De nossa voz que murmura, que suspira, que geme, que fala, pede ajuda se precisa, quando pode, de nossos corpos que se chocam, travam, podem apoiar outros corpos, acalenta-los, proteger outros em risco, fugir quando ameaçado, de nossas reações meio automáticas que dizem o tempo todo, “eu quero a vida”, quero preservar a vida, essa potência de sentir, de agir, de pensar. Tão brutalizada hoje.

Mas o que queria dizer é que cinco brasileiros, entre os quais eu, não tiveram seus corpos atingidos pelas balas. Nossos dois amigos foram operados e estão se recuperando. Estamos todos juntos. Sua fragilidade e sua força, seu olhar sereno e vulnerável, sua maneira delicada de dizer “sinto dor, não sinto, aqui, me ajuda por favor”, hão de fazer diferença. Porque a vida não espera. Vamos voltar para o Brasil logo. E bem. Pra esse Brasil que tem dado tantos sinais de intolerância religiosa, ideológica, étnica, política, moral, de gênero. Mas enfim, nossa casa. Obrigado pela preocupação!”

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Nota de falecimento

Faleceu hoje, na cidade de Ribeirão Preto (SP), o Prof. Dr. José Cláudio Gomes, docente aposentado do Departamento de Projeto da FAUUSP – Grupo de Disciplinas de Projeto de Edificações (GDPr).

O Prof. José Cláudio Gomes doou em 2008 sua biblioteca particular para a FAUUSP. Esta coleção, com mais de 5 mil títulos, está guardada na Biblioteca de Pós-Graduação, na rua Maranhão, 88, em Higienópolis. O acervo foi totalmente higienizado e encontra-se em processo de catalogação, tendo sido incluído no Banco Dedalus, até o momento, cerca de mil obras. Esse acervo deu início ao projeto “Biblioteca de Arquitetos”, onde procuramos manter o conjunto de títulos organizado na mesma ordem que o seu doador propôs, permitindo aos pesquisadores recuperar a trajetória intelectual do antigo proprietário.

Veja abaixo entrevista dada pelo Prof.  José Cláudio Gomes para o Vitruvius: http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/entrevista/06.023/3315

O professor está sendo velado em Ribeirão Preto e será trasladado para São Paulo na madrugada dessa sexta-feira.

O sepultamento ocorrerá amanhã, 25/09/2015, às 11h, no Cemitério Gethsêmani Morumbi. Endereço: Praça da Ressurreição, nº 1 – Vila Sônia, São Paulo (SP).

10º Seminário “Relatos de viagens dos docentes do AUT ao exterior”

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10 sem relatos

Artigo da revista “Espaço Aberto” sobre a Profa. Dra. Lara Leite Barbosa, da FAUUSP

Fonte: Revista Espaço Aberto

Do nomadismo da literatura para a vida pessoal

Por Giovanna Gheller
O tema, tão presente nos estudos da docente da FAU, é visto nas cidades pelas quais passou e nas viagens que realiza nas horas vagas

Lara Leite Barbosa é professora do Departamento de Projetos da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) e uma das ganhadoras do Prêmio Jabuti na edição de 2013. Em terceiro lugar na categoria Arquitetura e Urbanismo com o livro Design sem fronteiras: a relação entre o nomadismo e a sustentabilidade, da Editora da Universidade de São Paulo (Edusp), a docente teve consagrado o fruto de sua tese de doutorado, que recebeu influências das pesquisas exercidas desde a época da graduação.

“O Jabuti foi uma grande surpresa”, diz Lara. Quem inscreveu sua obra para o prêmio foi a Edusp, que cuidou do trabalho e o publicou. “Obviamente eu tinha muita vontade de me inscrever, mas não atinei para o prazo. Só soube que estava inscrita quando recebi o e-mail dizendo que estava entre os dez finalistas.” Junto com ganhar um Jabuti, um dos maiores privilégios que a docente vê em estar entre os três colocados é poder estar próxima a nomes como Benedito Lima de Toledo e João Filgueiras Lima, primeiro e segundo lugar, respectivamente.

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Durante as pesquisas para o doutorado, a docente passou três meses no exterior, e a cidade de Los Angeles, nos EUA, estava inclusa no roteiro

Lara nasceu em 1976 na cidade de Americana, interior de São Paulo, onde morou por cerca de um ano até se mudar para a cidade vizinha, Campinas. Lá viveu sua infância, de onde tem boas recordações sobre brincar de desenhar a giz no asfalto da rua o projeto daquilo que seria a sua casinha ideal. Já na adolescência, a família mudou-se novamente, dessa vez para Ribeirão Preto, a pouco mais de 300 quilômetros da capital. Atualmente o município faz parte dos roteiros de fim de semana da professora, que viaja para visitar a família desde que saiu de casa, aos 17 anos, para estudar Arquitetura e Urbanismo na Escola de Engenharia de São Carlos. “Tive várias andanças, até por isso o nomadismo está presente em meu trabalho”, conta.

Na época, o curso era um departamento da EESC, o que mudou em 2010, quando se tornou o Instituto de Arquitetura e Urbanismo (IAU). Ao contrário de muitos que optam pelo curso, a docente e pesquisadora não tinha muita habilidade para o desenho. Mas a criatividade nas brincadeiras de infância e o gosto por organização espacial já denunciavam a carreira que Lara escolheria quando mais velha, e o trabalho do tio materno, único arquiteto da família, também exerceu grande influência na hora decisão. “Gosto de organizar as coisas, sou meio sistemática, tanto que ingressei na área acadêmica, que é mais teórica”, diz. O interesse pelo ramo acadêmico surgiu logo na faculdade, quando Lara aproveitou a oportunidade de fazer iniciação científica no grupo de pesquisa em habitação, GHab, orientada pela professora Akemi Ino, onde pôde trabalhar com esquadrias de madeira de reflorestamento – o que futuramente lhe renderia ideias sobre sustentabilidade.

Também na graduação, participou de monitorias oferecidas por professores e aproveitou todas as oportunidades que teve para trabalhar com eles e conhecer seu modo de operar. “Os professores não tinham uma atitude tão paternalista, e esta é uma didática que eu considero muito positiva, que foi o que me ajudou a crescer. Fazem com que sejamos nós os responsáveis por conseguir fazer nossos relatórios, ir atrás, aprender a fazer plano de pesquisa. Você é obrigado a se virar, a aprender procurar onde está a informação para realizar seu trabalho.” A metodologia dos grupos de pesquisa, que exige autodisciplina para lidar com o relativamente longo período de tempo, e, ao mesmo tempo, manter o ritmo de produção, desde cedo encantou a professora. Conta: “Ao trabalhar em grupos em que um discute o trabalho do outro e as pesquisas estão inter-relacionadas, a gente consegue fazer trocas produtivas entre os resultados das pesquisas dos colegas”.

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Lara (de vermelho) com a turma da graduação, na EESC, em 1996

Permaneceu moradora são-carlense durante o mestrado, que fez no grupo de pesquisa denominado Nomads, coordenado pelo professor Marcelo Tramontano, a quem Lara tem como uma grande referência para seu trabalho. Logo que concluiu o mestrado, a professora passou em um concurso para ser docente na Universidade Federal de Uberlândia. Por isso, morou durante um ano na cidade, onde não conseguiu se adaptar, em especial por estar muito distante de seus parentes e amigos. Nessa época surgiria, então, uma oportunidade para trabalhar no Istituto Europeo di Design, o que coincidentemente foi próximo à quando foi aprovada para o doutorado Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, que seria difícil de ser realizado à distância. Pronto. Já tinha motivos suficientes para se mudar para São Paulo.

Tornou-se doutora em janeiro de 2009, poucos meses antes de passar no concurso para ser docente da FAU. “Por mais que pareça rápido, intercalei meu mestrado e meu doutorado com trabalhos em escritório também. Nos escritórios foram períodos bem curtos, a pressão do modo de trabalho não me agradava. Mas, ainda assim, não emendei uma pesquisa na outra.” Como uma linha sucessória de estudos, iniciação científica e mestrado tiveram uma ligação direta com o material de trabalho do doutorado, um misto dos dois que culminaria no ganhador do Prêmio Jabuti Design sem fronteiras – a relação entre o nomadismo e a sustentabilidade.

Nos finais de semana, quando não vai encontrar o namorado na praia, Lara vai para Ribeirão ver a família. “Fim de semana é importante para espairecer, porque em São Paulo a gente enlouquece.” Em decorrência de problemas na coluna, pratica atividades físicas com frequência. Gosta de andar de bicicleta e fazer pilates, e acha musculação algo muito monótono. Também procura almoçar de vez em quando com os amigos, no meio da semana mesmo. Tem nessa quebra de rotina um equilíbrio que a ajuda diante da vida solitária que leva o pesquisador. “Mas, de certa forma, essa solidão também pode ser muito estimulante para a escrita. Tem uma combinação interessante.”

Daqui para a frente

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Os sobrinhos João Lucas, Agnes e Cecília são alguns dos que levam Lara de volta a Ribeirão Preto

Lara acredita estar em um período muito fértil e feliz de sua carreira. Há pouco tempo recebeu a assinatura de um convênio de pesquisa para subsidiar seu projeto atual: trata-se de uma atividade pioneira na FAU, em que uma instituição americana chamada Architecture for Humanity, financiada pela Alcoa, apoia algumas iniciativas de pesquisa que visam à construção de projetos voltados, exatamente, para arquitetura humanitária. O projeto de protótipo inscrito, que a professora executará com seus alunos de grupo de pesquisa, é de um banheiro móvel, “um banheiro temporário para situações de emergência”. O município de estudo, desde 2010, tem sido Eldorado, próximo à divisa com o Paraná, que sofre com enchentes recorrentes, quase todos os anos, em diferentes graus. “O que a gente percebeu é que são utilizados edifícios públicos – ginásios, escolas, igrejas, centros comunitários – como  abrigo temporário, então pensamos em algo para aquele período de 7 a 15 dias, mais ou menos, em que a população precisa sair de casa por causa da invasão de água”, conta a professora. O grupo, denominado Núcleo Habitat Sem Fronteiras, ou Noah (“Noé”, em inglês, em referência bíblica àquele que, com sua arca, salvou a Criação do Dilúvio), pretende fazer o protótipo do banheiro em um contêiner justamente para que possa ser transportado de um lugar para o outro. Como conta Lara, a ideia é começar a prototipagem ao longo de 2014, testar e ter resultados e análises sobre a experiência até o final dos três anos estipulados para o trabalho.

5º Seminário “Relatos de Viagens dos Docentes do AUT ao Exterior”, na FAUUSP

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relatos de viagens

Data: 10.09.2013 (terça-feira)
Horário: das 14h às 16h
Local: Sala de aula 805 – FAUUSP
Endereço: Rua do Lago, 876, Cid. Universitária, São Paulo – SP

Fonte: Eventos-FAU