Livro “(Im)possíveis Brasílias: os projetos apresentados no concurso do plano piloto da nova capital federal”

Fonte: Agência FAPESP

26/09/2011

Por Elton Alisson

Agência FAPESP – No lugar de esplanadas, superquadras e eixos monumentais, a paisagem de Brasília poderia ser composta hoje por um aglomerado de chácaras que produziriam os bens necessários para a subsistência de sua população. Ou a capital federal do Brasil seria ultramoderna, abrigando seus moradores em torres da altura da Torre Eiffel.

Essas e outras “Brasílias”, que poderiam ter se tornado realidade se o arquiteto e urbanista Lúcio Costa (1902-1998) não tivesse participado e se sagrado vencedor do concurso do plano piloto de Brasília, em 1956, são descritas no livro (Im)possíveis Brasílias: os projetos apresentados no concurso do plano piloto da nova capital federal, lançado em agosto com apoio da FAPESP por meio da modalidade Auxílio à Pesquisa – Publicações.

Resultado da tese de mestrado de Aline Moraes Costa Braga, defendida em 2002 no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), o livro aborda os 25 projetos derrotados por Costa no “concurso arquitetônico mais importante do século 20”.

Para reuni-los, Braga visitou todos os escritórios de arquitetura que estavam ativos na época e realizou entrevistas com alguns dos arquitetos que participaram do concurso, como Joaquim Manoel Guedes Sobrinho (1932-2008).

Dessa forma, reuniu uma coleção documental e iconográfica sobre cada um dos projetos que participaram do certame e que até então estavam dispersos. Também contextualizou a história do concurso, que reuniu duas gerações de arquitetos no Brasil – os pioneiros do Movimento Moderno e jovens arquitetos que se destacariam nas décadas seguintes – e ficou marcado como um momento singular de debate internacional de ideias arquitetônicas.

Segundo Braga, a maior parte dos projetos apresentados no concurso se baseava no conceito de urbanismo moderno, que defendia a organização das principais funções da cidade.

“As referências às superquadras, com a ideia de possibilitar a independência entre a circulação dos pedestres e dos automóveis e setorizar os serviços de comércio, residencial e de lazer, são predominantes em todos os projetos”, disse à Agência FAPESP.

A única exceção, segundo ela, foi o projeto de José Octacílio de Saboya Ribeiro (1899-1967), que previa que a cidade seria construída na parte mais alta do relevo, distanciando-se consideravelmente do lago, e teria elementos renascentistas.

Outras propostas ousadas foram as dos arquitetos João Batista Vilanova Artigas (1915-1985) e dos irmãos Marcelo (1908-1964), Milton (1914-1953) e Maurício Roberto (1921-1996), do escritório MMM Roberto.

Um dos arquitetos mais jovens a participar do concurso, o paulista Artigas propôs que Brasília fosse uma aldeia rural, formada por um aglomerado de chácaras que produziriam tudo o que fosse necessário para o consumo de sua população e com habitações bem distantes uma das outras.

Por sua vez, os irmãos Roberto também propuseram que a cidade fosse dividida em sete núcleos autônomos, que teriam suas próprias administrações e infraestrutura de serviços, e cada um abrigaria um determinado órgão do governo.

“Essa proposta também é diferente dos outros projetos que, normalmente, condensaram todas as atividades governamentais em um só ponto da cidade. Ela evitaria que todo mundo se deslocasse para um local da cidade, como ocorre hoje, evitando congestionamentos”, avaliou Braga.

Segundo a autora, a proposta mais radical, e que se tornou a mais famosa depois do projeto Costa, foi a de Rino Levi (1901-1965). O arquiteto propôs uma cidade vertical, com torres com 300 metros de altura – altura semelhante à da Torre Eiffel –, que concentrariam as habitações. Já os edifícios públicos e os serviços da cidade se concentrariam na parte térrea, em edifícios totalmente baixos, que se contraporiam aos edifícios residenciais.

O projeto, que surpreendeu a crítica pela ousadia e por ter sido elaborado por um arquiteto que era visto na época como conservador, não agradou o júri do concurso.

“Os jurados acharam que a proposta dele não valorizava os serviços administrativos e governamentais, que seriam os principais objetivos da nova capital administrativa do país”, contou Braga.

A ausência mais notada no concurso foi a do paulista Francisco Prestes Maia (1896-1965). Prefeito de São Paulo e um dos mais experientes urbanistas brasileiros, Maia, que na época do concurso e da construção de Brasília estava desenvolvendo e implantando o projeto da cidade de Campinas, não participou do concurso por razões até hoje desconhecidas.

“É muito curioso o fato de que o maior urbanista brasileiro, que possuía um currículo que permitia ser convidado para projetar Brasília sem nem sequer ter de se inscrever no concurso, não tenha participado. E ninguém sabe qual a razão”, disse Marcos Tognon, professor da Unicamp, que orientou Braga e assina o prefácio do livro.

Projeto vencedor

De acordo com Tognon, também havia uma expectativa de que Lúcio Costa, que era um dos arquitetos mais importantes na época, não participasse do concurso. Mas, no último dia do prazo de inscrição para o concurso, a filha do arquiteto apresentou o projeto do pai, que venceu com bastante distância e destaque dos outros colocados e se contrastava deles, além da proposta, pela simplicidade com que foi apresentado.

Enquanto os outros projetos eram compostos por estudos, desenhos técnicos, documentos e maquetes, o de Costa era um memorial manuscrito curto, com cerca de 30 e poucas páginas, contendo os esboços de suas ideias, que solucionavam de maneira muito simples e elegante questões que outros arquitetos não conseguiram resolver após estudos exaustivos.

“O projeto era quase que uma proposta de estética urbana, enquanto que a dos outros projetos era de uma cidade funcional. Embora não esquecesse de pensar na função da cidade, Costa valorizou muito o efeito visual de Brasília, enquanto as outras propostas estavam mais preocupadas com a questão funcional, habitacional e de transportes”, avaliou Tognon.

Segundo ele, curiosamente, o projeto de Costa foi que o estava mais preparado para receber as obras de arquitetura de Oscar Niemeyer, que não participou do concurso porque foi convidado diretamente para executar o projeto.

Niemeyer foi estagiário de Lúcio Costa no início de sua faculdade de arquitetura no Rio de Janeiro e os dois arquitetos já haviam trabalhado juntos em outros projetos, como a construção do pavilhão brasileiro para a Feira Universal de Nova York. “Eles conviviam muito, tinham muitas afinidades e gostavam dos mesmos arquitetos e referências arquitetônicas europeias”, disse Tognon.

Segundo o pesquisador, Costa estudou um modelo de superquadra desenvolvido na Europa para adaptá-lo ao cerrado de Brasília. E buscou inspiração em grandes capitais, como Paris e Washington, para elaborar o eixo monumental da cidade, que é uma espécie de cena arquitetônica por onde foram dispostos os edifícios em posições estratégicas e as duas asas habitacionais da cidade.

Construída praticamente no prazo de 40 meses, e alvo de elogios e críticas, Brasília não teve tempo de amadurecer e se tornar uma cidade liberal, que demarcaria uma nova fronteira, conforme previa Juscelino Kubitschek (1902-1976), porque quatro anos depois viria a se tornar a capital da ditadura, aponta Tognon. O que fez com que Costa não pudesse mais trabalhar e Niemeyer se exilasse, tornando a capital federal uma cidade inacabada.

“Teríamos uma Brasília mais verde, com maior funcionalidade e melhor desenvolvida se não houvesse a ditadura militar. A cidade precisaria de mais 15 ou 20 anos dentro da mesma cultura política da época em que começou a ser construída para se desenvolver plenamente”, concluiu Tognon.

(Im)possíveis Brasílias: os projetos apresentados no concurso do plano piloto da nova capital federal
Autor: Aline Moraes Costa Braga
Lançamento: 2011
Mais informações: www.alamedaeditorial.com.br/contato.html

Estudo relaciona trabalhos de Costa e Bo Bardi

Da Agência USP

Lúcio Costa e Lina Bo Bardi foram dois arquitetos brasileiros consagrados que não somente ajudaram a destacar a arquitetura nacional no exterior, como também tiveram papel público fundamental no País. Esse papel integra as características que o arquiteto Marcelo Suzuki classifica como postura moderna de Costa e Lina em sua pesquisa para a Escola de Engenharia de São Carlos (EESC) da USP.

“Os dois foram batalhadores da implantação e defesa da arquitetura moderna. Porém, eles não se denominavam modernistas, porque tinham a consciência que ‘moderno’ não é estilo, mas uma postura. Eles sabiam que a atitude moderna é coletiva, enquanto modernista é um mero arremedo do moderno”, destaca Suzuki. No estudo, ele destaca as contribuições que os arquitetos deixaram para a arquitetura nacional e traça uma comparação entre os dois.

Uma das semelhanças entre os arquitetos se refere à preocupação que ambos possuíam com o papel da arquitetura no País. “Para eles, o arquiteto não deveria se isolar fazendo somente obras de luxo ou de sucesso comercial. O legado deles é muito mais significativo que isso, pois sempre carrega esse significado social, político e cultural muito mais importante”, comenta.

Suzuki exemplifica a atitude moderna com outra característica comum entre Costa e Lina: ambos trabalharam com patrimônios históricos. A principal diferença no trabalho deles é que não se limitaram à restauração de construções históricas, eles também interferiam nelas.

O arquiteto ilustra esse esforço de ambos em projetos como a Igreja e o Outeiro da Glória no Rio de Janeiro, de Costa, e o Sesc Pompéia em São Paulo, de Lina. No primeiro, Costa incluiu um projeto para rampas no outeiro; no segundo, Lina aproveitou a antiga fábrica de tambores que ocupava o espaço e incluiu nova estrutura de concreto armado. “Antes se fazia somente arremedos do que se imaginava como eram as construções, enquanto os dois marcaram suas intervenções, deixando nítido o que era a intervenção nova e o que era recuperado do patrimônio, sem contrafações ou disfarces”.

Além disso, Suzuki enfatiza que tudo o que eles fizeram era importante para o interesse público; mesmo nas casas particulares, os arquitetos aplicavam seus conhecimentos históricos e técnicas de estudos em experimentações, o que é importante para posteridade, em novos estudos na área.

Aspectos particulares
O trabalho faz parte da tese de doutorado do arquiteto, sob orientação do professor Carlos Alberto Ferreira Martins, da EESC. A partir de documentos, notícias da imprensa e outras pesquisas sobre Costa e Lina, Suzuki remonta a trajetória dos dois e aponta alguns aspectos que permitiram que se destacassem.

O arquiteto lembra que ambos nasceram no exterior, Costa na França e Lina na Itália. Porém, viveram boa parte de suas vidas profissionais no Brasil e compartilhavam o espírito nacional, que superava a baixa auto-estima que os brasileiros tinham em sua época frente aos países desenvolvidos. “Por ter esse trânsito internacional, eles não tinham o complexo de vira-lata de que o escritor e dramaturgo Nelson Rodrigues falava”, diz.

Seus trabalhos colaboram na projeção que a arquitetura moderna brasileira ganhou em todo o mundo. Eles concretizaram o modernismo na arquitetura nacional com suas obras mais conhecidas, como o projeto da cidade de Brasília, de Costa, e o Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (MASP), de Lina. Neste aspecto, Suzuki observa que eles tinham a liberdade de usar desde o complexo concreto protendido até pau-a-pique, “porque não é o material ou a forma que manifesta a postura moderna”, ressalta.

O arquiteto ainda comenta que a preocupação de Lúcio Costa e Lina Bardi com a arquitetura na esfera pública não se vê mais atualmente. Para ele, as obras de viés particular sobrepuseram as de interesse público:“Estamos caminhando para um mundo não moderno, com muito mais superficialidade, com novos ricos, um mundo esnobe. Estudar o comportamento dos dois arquitetos vai contra essa tendência”.

Mais informações: email mszkau@gmail.

Fonte: http://migre.me/3zFig

Lançamento: Lucio Costa (Coleção Encontros)

NOBRE, Ana Luiza (Org.). Lucio Costa. Rio de Janeiro:  Beco do Azougue, 2010.  259 p. (Coleção Encontros). ISBN 978-85-7920-032-8.

“O principal critério norteador desta publicação foi o de apresentar uma seleção suficientemente ampla e capaz de apresentar, mesmo para um leitor pouco informado, a agudez do pensamento e a riqueza do percurso desse arquiteto cuja ação foi muito além do campo estrito da arquitetura e do urbanismo. Para isso foram buscadas desde as suas primeiras entrevistas, ainda marcadas pelo academicismo dos anos 1920, até as suas últimas palavras. O ecletismo, a Escola de Belas Artes, a arquitetura moderna e pós-moderna, o Patrimônio, Aleijadinho, Le Corbusier, Brasília, Rio de Janeiro, Barra da Tijuca: esses são alguns dos temas centrais em torno dos quais giram as 20 entrevistas aqui reunidas. Algumas delas são bem conhecidas do público especializado, outras permaneciam inéditas, inacessíveis ou quase esquecidas. Somadas, elas lançam uma nova luz sobre o pensamento e a ação de Lucio Costa, cuja obra está longe de ser esgotada.” 

Da apresentação do livro, por Ana Luiza Nobre.

Sumário

Apresentação, por Ana Luiza Nobre
A alma dos nossos lares (1924)
O arranha-céu e o Rio de Janeiro (1928)
O Palácio da Embaixada da Argentina (1928)
O novo diretor da Escola de Belas Artes e as diretrizes de uma reforma (1930)
Inquérito Nacional de Arquitetura (1961)
Brasília foi feita para o homem com fé num Brasil e num mundo melhores (1961)
Resginação e paciência no trânsito carioca (1974)
Arquitetura após Brasília (1979)
A realidade maior que o sonho na Brasília de 25 anos depois (1984)
Lucio Costa sobre Aleijadinho (1986)
Presença de Le Corbusier (1987)
Lucio Costa: a vanguarda permeada com a tradição (1987)
Profissão de fé (1987)
Sobre a Barra da Tijuca (1988)
Conversa caseira (1990_
Instantâneo. Os anos 80 na arquitetura (1990)
A concepãp da superquadra de Brasília (1990)
Sobre o patrimônio (1992)
O século por Lucio Costa (1995)
Je suis comme je suis (1997)

Mais informações: www.azougue.com.br

Fonte: DOCOMOMO