Paulo Mendes da Rocha vence Leão de Ouro em Veneza pelo conjunto da obra

Notícia da Folha de S. Paulo

PMR

SILAS MARTÍ
DE SÃO PAULO

Paulo Mendes da Rocha, um dos arquitetos mais celebrados da história do país, acaba de ser anunciado o vencedor do Leão de Ouro pelo conjunto de sua obra na Bienal de Arquitetura de Veneza.

Primeiro brasileiro a vencer o prêmio na mostra italiana, este ano comandada pelo chileno Alejandro Aravena, ele também venceu o Pritzker, maior reconhecimento mundial da arquitetura, há dez anos.

Mendes da Rocha foi escolhido pelos diretores da mostra italiana como homenageado deste ano por sugestão de Aravena, o primeiro arquiteto latino-americano a dirigir uma edição desta que é a maior exposição de arquitetura do mundo.

De acordo com Aravena, o “atributo mais marcante de sua arquitetura é sua atemporalidade”. “Muitas décadas depois de construídos, seus projetos resistem aos avanços do tempo, tanto em aspectos físicos quanto de estilo. Essa consistência estarrecedora é consequência de sua integridade ideológica e sua genialidade estrutural”, diz o chileno. “Ele é um desafiador inconformado ao mesmo tempo que um realista apaixonado.”

Aravena também destacou na justificativa pela escolha de Mendes da Rocha seu papel nos campos político, geográfico e social, além de ele ter servido de exemplo para gerações de arquitetos no Brasil e na América Latina.

Mendes da Rocha, que receberá o prêmio em Veneza em 28 de maio, é um dos maiores nomes da escola paulista de arquitetura, reconhecido pelo estilo brutalista de suas construções, além de um profundo engajamento com ideais de esquerda.

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Brasileiros são tema de exposição e conferência em trienal de arquitetura

Notícia da Folha de S. Paulo

O arquiteto capixaba Paulo Mendes da Rocha terá projetos emblemáticos expostos durante a Trienal de Milão, evento internacional de arquitetura, design e artes decorativas que acontece de maio a agosto deste ano na Itália.

A mostra reunirá desenhos, esboços e fotografias do vencedor do prêmio Pritzker (“Oscar” da arquitetura) de 2006. Maquetes serão também construídas para materializar a concepção “brutalista” –corrente arquitetônica que valorizava a estrutura da construção– de Rocha.

A curadoria é do historiador italiano Daniele Pisani, autor do livro “Paulo Mendes da Rocha: Obra Completa”.

A Trienal organizará também a conferência “Arquitetura brasileira, dois mestres” no final de março. Nela, serão abordados não só os projetos de Paulo Mendes da Rocha, mas também o legado de Oscar Niemeyer.

Três novos prédios, três concepções inovadoras

USP Destaques nº 80 – 06/09/13

A paisagem da Cidade Universitária “Armando de Salles Oliveira”, em São Paulo, ganhará novos contornos. Está prevista a construção de três novos prédios, com projetos de autoria de renomados arquitetos brasileiros

A nova infraestrutura permitirá abrigar, à altura de uma universidade do porte da USP, órgãos importantes e de grande visibilidade e atualidade, além de coroar o ciclo recente de revitalização da estrutura física do campus, que inclui a restauração do prédio da Antiga Reitoria, com a construção das novas dependências do Conselho Universitário; o novo sistema de iluminação; a construção do Centro de Difusão Internacional e do Centro de Convenções, entre outras ações.

O Museu de Arte Contemporânea (MAC), o Instituto de Estudos Avançados (IEA) e o Núcleo de Estudos da Violência (NEV) terão nova sede, constituída por um edifício localizado na chamada Praça do Pôr do Sol, na Avenida Lineu Prestes, que estará integrado à Praça dos Museus.

A Praça dos Museus, projetada pelo arquiteto Paulo Mendes da Rocha, prevê a construção das novas sedes do Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE) e do Museu de Zoologia (MZ), em área contígua à Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia, com frente para a av. Corifeu de Azevedo Marques. A área total construída será de 53 mil metros quadrados. O local contará ainda com um saguão único para os museus, restaurante, café e belvedere. A previsão é de que as obras estejam concluídas até setembro do próximo ano.

O novo prédio do MAC, IEA e NEV, que também foi projetado por Rocha, terá área construída de 21 mil metros quadrados. A concepção do projeto preserva o caráter de espaço de lazer, recreação e de acesso público do local.

Será composto por praça associada a uma torre. A torre terá 12 pisos, com pés-direitos, plantas e estruturas diferenciados nos andares para atender às diferentes demandas de uso, como, por exemplo, instalação de reservas técnicas, acervos de bibliotecas e escritórios administrativos. A verticalização com liberdade de arranjos na construção permitirá uma melhor utilização da área ocupada.

No térreo, será instalado um grande salão para exposições do MAC, auditório, oficinas para atividades didáticas, entre outros espaços. No último andar, um terraço, com jardim e cafeteria, servirá como ponto de encontro e confraternização para funcionários, docentes e visitantes.

Prédio ambientalmente sustentável

O Centro de Estudos de Clima e Ambientes Sustentáveis (Cecas) será a primeira edificação ambientalmente sustentável da Cidade Universitária. O projeto nasceu da parceria entre o Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) e a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) e integrará o Laboratório de Modelos de Sustentabilidade do Departamento de Tecnologia da Arquitetura da FAU e o Centro de Ciências da Terra e do Ambiente do IAG.

Trata-se de um edifício-modelo, concebido pelos arquitetos Eduardo de Jesus Rodrigues e Marcelo Andrade Romero e detalhamento arquitetônico do escritório de Paulo Bruna. Conta com três blocos funcionais e quatro pavimentos de escritórios e laboratórios, planejados para gerar toda a energia elétrica a ser consumida na etapa de uso e operação por meio da instalação de tecnologias solares.

No projeto, foram considerados três pressupostos básicos: a maximização da relação arquitetura versus clima, como forma de reduzir os futuros consumos energéticos (tecnologias solares passivas); a utilização das tecnologias ativas com baixo consumo de energia e a implantação de iniciativas de sustentabilidade e reduzido impacto ambiental durante as etapas de construção, uso e operação do edifício.

No novo prédio, localizado na confluência da Rua do Matão com a travessa V, estão previstos, entre outros aspectos, o controle da radiação solar por meio de protetores solares externos automatizados; a otimização da Iluminação natural e prateleiras de luz; ventilação natural com controle automatizado; resfriamento do ar pelo solo; geração de energia elétrica por meio do efeito fotovoltaico; automação e gerenciamento da energia com painel demonstrativo; captação de água de chuva para reaproveitamento em bacias sanitárias e irrigação de jardim; coletores solares planos para aquecimento de água em chuveiros e lavatórios; além da utilização de materiais de construção com conteúdo reciclado.

Inovação

O edifício do Laboratório de Inovação e Empreendedorismo, com projeto do arquiteto Ruy Ohtake, será construído na Escola Politécnica. A iniciativa conta com o apoio da Fundação para o Desenvolvimento da Engenharia, que destinou recursos para a contratação do projeto arquitetônico e executivo do novo prédio. Este será o primeiro laboratório do gênero no país, com nove mil metros quadrados de área construída, quatro pavimentos e projetado para abrigar o desenvolvimento simultâneo de até 30 projetos de grande porte.

A entrada do edifício será constituída por um espaço de exposição voltado para apresentar e discutir os projetos e protótipos dos alunos. O local vai abranger também trabalhos de outras áreas, como comunicação, design, vídeo e cinema. O espaço será organizado por dois paineis de vidro, em dois tons de azul semitransparente e, fixadas nesses vidros, células hemisféricas fotovoltaicas envoltas em semiesferas de acrílico vão gerar energia para uso do prédio. Com cobertura também em vidro, o espaço terá pé-direito de 12 metros.

O edifício estará localizado à Avenida Prof. Luciano Gualberto, travessa 3. Os três prédios estão em fase de elaboração de projeto executivo. Após essa etapa, será possível estabelecer o montante de investimentos a ser feito, dar início aos processos de licitação e elaborar o cronograma para as obras.

“Niemeyer foi a melhor e a pior coisa para a arquitetura brasileira”, diz crítico na Flip

Noticia da Folha de S. Paulo

O crítico de arquitetura americano Paul Goldberger, vencedor do prêmio Pulitzer, e o arquiteto português Eduardo Souto de Moura, vencedor do Pritzker, principal prêmio mundial de arquitetura, fizeram nesta quinta (4) a segunda mesa do dia na Flip 2013, intitulada “As Medidas da História”.

Quase no fim de sua palestra, quando provocado pela plateia, Souto de Moura se derramou em elogios a Paulo Mendes da Rocha.

“Ele está na flor da idade de sua produção. Assumo que já o copiei, até”, disse rindo. “O que me interessa nele é a maneira como ele vê o mundo, eticamente, politicamente. Ele é um monolito”.

Sobre Oscar Niemeyer, morto no ano passado, aos 104 anos, o português não se declarou tão simpático. “Niemeyer foi brilhante ao mostrar que certas obras são possíveis, mas nem sempre funcionais.”

“A sombra de Niemeyer é tão grande que até pouco tempo atrás as pessoas nem sequer conheciam fora do Brasil a Lina Bo Bardi, que de fato foi uma das maiores arquitetas do século 20”, emendou Goldberger, que disse ainda que o brasileiro foi a melhor (por ter projetado a arquitetura brasileira no cenário internacional) e a pior (por ter limitado a repercussão das gerações seguintes) coisa que aconteceu à arquitetura local.

Os dois concordaram que as primeiras obras de Niemeyer é que os apetece. “Não acho que a obra do Niemeyer tenha a profundidade dos trabalhos de Mendes da Rocha. Acho que depois de certo tempo ele passou a acreditar na própria lenda, se copiar, fazer uma paródia mais simplista de si mesmo. Os museus que ele projetou são até ridículos, embora divertidos”, encerrou o americano.

PROCESSO E RESULTADO

Antes disso, a discussão se guiou pela importância do processo de construção de obras arquitetônicas, algo sobre o qual Goldberger disse que importa menos para o crítico.

“O objeto final é o que vai importar de fato, porque não faz sentido voltar atrás, mas, sim, pensar o objeto como para o futuro, o modo como as pessoas vão se relacionar com aquela obra.”

Nas palavras de Souto de Moura, esse mesmo processo é, sobretudo, a administração do pânico e da dúvida. “Um arquiteto é um esquizoide, na medida em que precisa adequar a intenção do cliente, a dele próprio e sem perder a noção de realidade”.

“Um arquiteto precisa ser um psicanalista, um psiquiatra, porque se a obra deu certo, é porque ele conseguiu entrar na alma, na psiquê do cliente. Ao mesmo tempo em que precisa seguir o seu programa, a sua formação e o seu estilo”, concordou Paul Goldberger.

Bem-humorado, Souto de Moura deu um exemplo pessoal: “Há tempos construí uma casa para uma amiga, também arquiteta, que não conseguia projetar a própria moradia. Tempos depois ela me vendeu a casa e hoje eu moro numa casa que projetei para outra pessoa. Então todos os dias eu abro a janela e acho que há algo errado com ela, com o tamanho dela, com a casa toda”, divertindo a plateia.

Sobre o papel da crítica, o português sentenciou que a arquitetura não pode ser adjetivada nem a crítica pode ser pessoal. “O adjetivo reduz a arquitetura. Adjetivos como ‘sustentável’ ou ‘ecológica’ não explicam e muito menos dão a proporção de uma obra em relação à história.”

Souto de Moura e Goldberger debateram a relação entre obras consideradas históricas e a sua pouca funcionalidade. “Grandes casas chamadas modernas, que sao mostradas como resumos de uma época da arquitetura, estão vazias, as pessoas deixaram-nas para trás, não conseguiram viver muito tempo nelas”, disse o português.

Discordando dele, o americano declarou que a arquitetura tem o desafio de ser também arte e encontrar o equilíbrio entre esses pontos é um grande desafio.

“Não deve ser fácil morar em uma obra de arte, como não deve ser fácil ouvir a mesma sinfonia a vida inteira sem que ela chegue a um ponto de incômodo. Então acho que é permitido que algumas obras arquitetônicas estejam postas como obras de arte.”

Arquiteto Paulo Mendes da Rocha fala sobre o prédio do IAB-SP

Notícia da Folha de S. Paulo

“Todo mundo frequentava o restaurante que existia no mezanino, ao lado do móbile do Calder. A comida era muito boa. O responsável era o chef Xavier, um nordestino muito interessante. Xaxá gostava de ouvir conversas.

Num belo dia, chegamos para comer, e ele ofereceu um ‘melão à Frank Lloyd Wright’ [referência ao arquiteto que projetou o Guggenheim de Nova York]. Aceitamos.

pmr

Paulo Mendes da Rocha, 84, é arquiteto e o único brasileiro vivo ganhador de um Prizker (o “Prêmio Nobel da arquitetura”)

iab

Foto atual da sede do IAB-SP, que será reformada com vaquinha na web

Xaxá veio até a mesa, cortou um melão em espiral, puxou um lado para cá, outro para lá, e pronto: tínhamos um ‘Frank’.

Outro dia, ele propôs um ‘pêssego à Niemeyer’. Dois retângulos perfeitos de queijo branco entre duas metades de pêssego em calda, uma virada para cima, outra para baixo. Voilà: o Congresso Nacional num prato.

À noite, nos encontrávamos no subsolo. Eu frequentava o Clubinho dos Artistas porque tinha muitos amigos ali –Aldemir Martins, Mário Gruber, Rebolo… A maioria desses artistas doava obras, que logo eram penduradas nas paredes. Era um verdadeiro ‘club’, um ponto de encontro.

Vim trabalhar neste prédio há pelo menos 25 anos. Cheguei pelo mesmo motivo que muitos colegas: este é um edifício interessante.

Sua volumetria é marcante, e sua construção é fruto do engajamento de importantes arquitetos, numa iniciativa coletiva, independente do poder público. Mas não era fácil encontrar salas vagas no IAB.

Meu escritório anterior ficava no Conjunto Nacional [na Avenida Paulista com a rua Augusta].

Lá pelas tantas, algo raro aconteceu, alguém vendeu sua sala e eu vim. Hoje, como crônica da cidade, digo que também saí do Conjunto para me livrar dos crachás e roletas.

Arquiteto vira duas, três noites sem dormir fazendo projeto. Eu não queria nem tinha tempo para passar por seguranças, me apresentar, bater cartão.

Quando fui para o IAB, me tornei dono da casa: eu tenho a chave da porta do prédio. Desde então, entro sábado, entro domingo, saio tarde… um ir e vir sem dificuldades.”

Paulo Mendes da Rocha, 84, é arquiteto e o único brasileiro vivo ganhador de um Prizker (o “Prêmio Nobel da arquitetura”).

Galeria muda de quarteirão e reproduz prédio de Paulo Mendes da Rocha

Fonte: Folha.com

NATÁLIA ZONTA
DE SÃO PAULO

Qualquer semelhança não é mera coincidência. A menos de dois quarteirões de distância, a mesma fachada, os mesmos materiais e o mesmo projeto assinado pelo premiado arquiteto Paulo Mendes da Rocha poderão ser vistos em duas construções distintas.

Replicado em um terreno na avenida Valdemar Ferreira, no Butantã (região oeste), o prédio que hoje abriga a galeria Leme, na rua Agostinho Cantu, será demolido até o fim do ano para dar espaço a um edifício de escritórios. Para não perder a identidade -e não se desfazer de um espaço que adora–, Eduardo Leme, proprietário do local, decidiu reproduzir as instalações no novo endereço.

A mudança é resultado de uma longa negociação. Desde 2010, a Odebrecht tentava comprar a área de Eduardo. Após muitas conversas, os envolvidos chegaram a um acordo. Assim, a empresa comprou um terreno na região e agora constrói a galeria do jeitinho que ela é hoje.

“Não tivemos a ideia de usar o mesmo projeto imediatamente, mas, depois de conversar com os arquitetos, vi que nenhuma outra possibilidade me agradava. Sou muito tradicional nesse sentido”, conta Eduardo.

A única modificação é a construção de um anexo, um cubo de concreto armado, que funcionará como reserva técnica. “Quando abri a galeria, não imaginava que precisaria de mais espaço, mas agora é necessário”, diz o proprietário.

O novo local vai dar mais visibilidade ao projeto: hoje, a galeria tem dois vizinhos e apenas uma fachada é visível. O prédio substituto vai ocupar uma esquina e toda a sua lateral –um paredão de concreto– ficará à mostra. O anexo, que será ligado à galeria por uma passarela, também vai ajudar a mudar a paisagem da região.

“Metade da construção já está pronta e, até o fim do ano, deve ser inaugurada. A coexistência dos dois prédios vai depender da logística da mudança”, explica Gustavo Cedroni, do escritório de arquitetura Metro, que tem parceria com Paulo Mendes da Rocha. Atualmente, é possível ver as fachadas da nova estutura. Por isso, quem passa pela região já avista dois imóveis iguais.

O processo de mudança da galeria Leme é acompanhado por artistas do espaço e, provavelmente, o material produzido no período será transformado em uma exposição.
Entre os convidados, estão Rogério Canella, fotógrafo da sãopaulo, José Carlos Martinat, Sandra Gamarra e David Batchelor.

A galeria

Foi inaugurada em 2004 com a intenção de mostrar experimentos de arte contemporânea. O prédio tem 420 m2 e 9 m de pé-direito.

Hoje, representa artistas brasileiros e internacionais, com ênfase em América Latina, que trabalham em vários tipos de mídia, de pintura a vídeos.

Alguns artistas representados pela galeria são David Batchelor, Elaine Tedesco, Felipe Cama, JR Duran, Frank Thiel, Nina Pandolfo e Sandra Gamarra.

Antes de mudar de endereço, o espaço recebe, até 12 de novembro, a mostra da dupla dinamarquesa AVPD.

 

Paulo Mendes da Rocha alerta para “rota dos desastres”

Fonte: Folha.com

SILAS MARTÍ
DE SÃO PAULO

Na arquitetura do país, Paulo Mendes da Rocha é um divisor de águas. Foi o último brasileiro a vencer o Pritzker, maior prêmio da área no mundo, depois de Oscar Niemeyer, e a linguagem que ajudou a construir na chamada escola paulista serve de base conceitual na obra dos jovens arquitetos agora em voga.

Mas em seu escritório no centro de São Paulo, na véspera de abrir uma mostra de seus projetos, ele diz que esse estilo é “bobagem” e que o concreto virou o material-chave em sua obra por ser “belíssimo” como estrutura.

São de concreto aparente, aliás, os dois desenhos que desenvolve agora, o Cais das Artes, complexo com museu e teatro, em Vitória, e o Museu dos Coches, que está em fase de conclusão em Lisboa.

Mostrando fotografias do canteiro de obras em Portugal, ele não esconde o fascínio pela proeza das máquinas e novas possibilidades de construção. Ao mesmo tempo, parece desapontado com o urbanismo atual no Brasil.

“Estamos aceitando uma rota do desastre em questões que são evidentes”, diz Mendes da Rocha, 82. “Falta projetar os desejos na forma de ensaios e perspectivas.”

No caso, ele desacredita dos planos para o centro paulistano. “Não é bom imaginar que essas áreas só se revitalizam com obras extraordinárias”, afirma. “Uma cidade é feita de comércio, habitação e vida do dia a dia, isso entra na frente de qualquer museu ou sala disso ou daquilo.”

Ele também se assusta com o avanço da especulação imobiliária. Um projeto seu, a galeria Leme, no Butantã, é vítima desse processo. Será demolida e reconstruída em novo endereço para dar lugar a mais um grande complexo de apartamentos e escritórios.

“Parece que o governo está de mãos atadas em relação à cupidez do mercado”, diz o arquiteto. “Verticalizar toda a cidade na matriz das velhas casinhas é uma estupidez.”

Na opinião de Mendes da Rocha, aliás, os avanços reais no mundo moderno parecem estar na cabeça das pessoas e não nas pranchetas.

Ele vê uma mudança radical de pensamento na forma como o homem lida hoje com a natureza, dizendo que “ninguém precisa se convencer de que o planeta é só um calhau desamparado no espaço”.

E nesse pedregulho ameaçado, ele segue construindo espaços. “Os projetos de um arquiteto são todos um só projeto”, diz Mendes da Rocha. “Um arquiteto não projeta para si, mas trabalha na ilusão de satisfazer desejos.”