Edifício que abrigou o Cine Ipiranga em São Paulo é tombado

Notícia da Folha de S. Paulo

DE SÃO PAULO

15/05/2014 18h06

Foi publicada nesta quarta-feira (14) uma resolução da Secretaria de Estado da Cultura tombando o edifício que abrigou o antigo Hotel Excelsior e o Cine Ipiranga, localizado na avenida Ipiranga, 770 e 786, no centro de São Paulo. A Prefeitura pretende abrir um cinema de rua no local.

Segundo o texto do tombamento, o prédio projetado pelo arquiteto Rino Levi (1901-1965), é um exemplo da arquitetura moderna e resultado de uma concepção criativa caracterizada por sobrepor, em um terreno pequeno, “uma grande torre de hotéis e uma monumental sala de cinema, ambos representativos de programas inovadores e característicos de meados do século 20 em São Paulo”.

Formado na Itália, Levi foi um dos maiores expoentes do modernismo brasileiro, conhecido por seus desenhos de ângulos retos e austeros. O Cine Ipiranga foi o quarto cinema que projetou em São Paulo, depois de ter feito outros gigantes como o Ufa-Palácio, o Universo e o Piratininga, todos na região central da cidade.

 Cine IpirangaCine Ipiranga, na avenida Ipiranga com avenida São João, em imagem de 1987

Inspirado no racionalismo italiano, em especial na distribuição em torno de pátios internos, e nas formas geométricas do arquiteto polonês Erich Mendelsohn, por sua vez alinhado aos preceitos racionais do fundador da Bauhaus, Walter Gropius, e do alemão Mies van der Rohe, Levi criou uma fachada quadriculada para o cinema.

Mas abusou das referências ao art déco do lado de dentro. Os detalhes nesse estilo do início do século 20 estão nas luminárias e escadarias do Cine Ipiranga, também famoso por seus balcões e marquises em curva do lado de dentro.

Em suas construções, o arquiteto também fez alusões ao impacto que sentiu ao visitar a Casa Modernista, obra de Gregori Warchavchik, na Vila Mariana, uma das primeiras construções modernas em São Paulo.

Mesmo fascinado pela casa, o arquiteto foi um dos maiores defensores da verticalização da cidade e seu edifício Columbus, de 1934, é considerado o primeiro condomínio de apartamentos na capital paulista.

A sala do Cine Ipiranga, aberta em 1941 e fechado em fevereiro de 2005, ainda conserva grande parte de sua concepção original, incluindo detalhes no corrimão e luminárias. O espaço interno do hotel, por sua vez, sofreu algumas reformulações ao longos dos anos, com renovação dos quartos e dos banheiros.

De acordo com o texto de tombamento, contudo, as fachadas externas “mantêm presença marcante na paisagem, apresentando claramente suas características fundamentais de arranha-céu vinculado à arquitetura moderna”.

Foi determinado que a configuração do saguão, as escadarias e a sala de espetáculos do cinema serão preservados. Para assegurar a manutenção do edifício, podem ser acrescentados a ele alguns elementos de infra-estrutura desde que aprovados pelo Condephaat (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico).

O Condephaat autorizou o tombamento em reunião realizada em 25 de outubro de 2010.

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Tombadas 7 obras do arquiteto Rino Levi

Notícia do Estadão.com.br/São Paulo, de 04/11/2010

A primeira garagem vertical de São Paulo, o conjunto de cinema e hotel que foi o mais luxuoso da capital, um prédio cujo projeto é considerado o mais bem-sucedido da Avenida Paulista. A obra do arquiteto Rino Levi, expoente do modernismo no Brasil, recebeu na semana passada novo reconhecimento: sete construções representativas do arquiteto foram tombadas pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico do Estado de São Paulo (Condephaat), após 15 anos de análise técnica.

Cinco das sete obras ficam na capital paulista. Com o tombamento das estruturas, qualquer modificação na fachada e nos elementos internos tem de passar pela aprovação do Condephaat.

Entre as obras tombadas está o conjunto do Cine Ipiranga e Hotel Excelsior, na Avenida Ipiranga, no centro, de 1941. “O Cine Ipiranga foi o maior e mais importante cinema da cidade, com projeto inovador, que previu um hotel de 22 andares em cima”, contou o arquiteto Carlos Faggin, conselheiro do Condephaat. “Foi preciso fazer uma ponte entre as estruturas, o que torna seu projeto significativo para a arquitetura de cinema.”

Também foi tombado o Edifício Garagem América, na Rua Riachuelo, região central. Construído entre 1952 e 1958, o prédio passa quase despercebido na rua estreita, mas trata-se do primeiro estacionamento vertical de São Paulo, e também o primeiro a apresentar estrutura metálica aparente do Brasil – são 15 andares com vigas de aço que jamais foram revestidas por concreto.

“Ele já pensava no problema de circulação que se intensificaria. Eram projetos tratados como um todo, não apenas o prédio, mas o lote e o entorno”, disse a pesquisadora Maria Beatriz de Queiroz Aranha, da PUC-Campinas, autora de tese de doutorado sobre o arquiteto.

Outro edifício tombado é a sede do antigo Banco Sul Americano do Brasil (hoje Itaú), na Avenida Paulista, esquina com a Rua Frei Caneca. O prédio, de 1961, é apontado pelo Condephaat como o mais eficiente da via, pois foi colocado “de lado”. “Sua colocação traz amplitude na vista e não faz parte da “muralha” de prédios que isola a avenida”, explicou Maria Beatriz.

Levi também projetou no Jardim América, na zona sul, uma casa em que o próprio quintal serviria de jardim para o bairro todo. Trata-se da residência Castor Delgado Perez, na Avenida 9 de Julho, outra obra protegida.

Também foi tombada a antiga sede do Instituto de Filosofia, Ciência e Letras Sedes Sapientiae, na Consolação. Os dois edifícios, de 1933, têm jardim interno de autoria de Burle Marx e são hoje um dos câmpus da PUC-SP.

Fora da capital. Outras duas construções de Levi que não estão na cidade de São Paulo também foram protegidas. Em São José dos Campos, no interior, foi tombada a residência Olívio Gomes, na Fazenda Santana do Rio Abaixo, também com projeto paisagístico de Burle Marx. Em Santo André, no ABC paulista, foi tombado o Paço Municipal, última obra de Levi, concluída em 1965, após a morte do arquiteto.

QUEM FOI

RINO LEVI
ARQUITETO, PIONEIRO DO MODERNISMO NO PAÍS

O arquiteto paulistano Rino Levi (1901-1965) tem como marca a integração dos projetos com o entorno. Além de edifícios e residências, se consagrou como projetista de hospitais – como o Albert Einstein, por exemplo.

 

 Fonte: http://migre.me/24NNU